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Ahn·?

Viaje para qualquer lugar do mundo e você encontrará pessoas confusas. Não será muito difícil de perceber, porque há uma grande chance de que elas olhem para você e perguntem: “ahn?”. Ou pelo menos é o que supõe um grupo de linguistas do Instituto Max Planck de Psicolinguística, na Holanda — “ahn?” ou “ã?” é a palavra mais universal de todas.

Há algumas variações, mas que ainda assim deixam ver as semelhanças. Alguns exemplos: os espanhóis e italianos perguntam algo como “ê?”, os franceses falam “hein?” (e nós também, porque adotamos muitos termos franceses), os islandeses dizem “ha?”, os laocianos (do Laos, sudeste da Ásia), “a?”, os holandeses, “hé?”, os ingleses, “hã?”. Em mandarim, é “ã?”, assim como em murrinh-patha, idioma aborígene australiano, falado atualmente por cerca de 3.000 pessoas. E é “ã” também para os portugueses e os falantes de siwu, idioma de uma região montanhosa em Gana. Os russos perguntam “ah?”, os indígenas que falam a língua cha’palaa, no Equador, dizem “-ah?”, que é quase igual, mas começa com uma oclusiva glotal (o som sem som de quando o ar é impedido de passar pela glote — não é comum em português, mas experimente dizer “hum-hum” com uma pequena interrupção no meio).

Não se encontrou ainda nenhum lugar do mundo onde as pessoas fizessem esse tipo de interrogação breve com “i?”, “o?” ou “u?”, nem muito menos com “bibi?”, “ruru?” ou, por que não, “inconstitucionalissimamente?”.

Essas variantes de “ã” “a” e “e” são uma maneira rápida e fácil de tirar uma dúvida sem interromper demais o fluxo da conversa. Às vezes, por economia, o som pode se transformar num “m" ou “n”. Mas nunca chega a ser um grunhido qualquer. Cada língua tem sua própria série de normas de quão “ã” ou “ê” seu “ahn?” deve ser.

Os idiomas dados como exemplo não estão todos em contato, então não se pode explicar o fenômeno dizendo que a palavra foi simplesmente passando de um falante para outro. Além disso, muitas dessas línguas pertencem a famílias linguísticas diferentes, então também não há uma origem ou etimologia em comum. Aliás, é difícil mesmo falar de etimologia num caso desses: como dizer de onde a palavra evoluiu? E será que chegou mesmo a evoluir? Ou em cada uma das línguas ela é idêntica ao que sempre foi? Viaje para qualquer momento do passado e você provavelmente encontrará o mesmo: pessoas confusas.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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