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In·ver·no

Dormimos mais no inverno. Com o solstício que inaugura a estação, o sol parece querer parar: “solstitium”, de “sol" + “sistere”, “sol estático”. E então a noite se estende, chega a ficar mais longa que o dia. “Inverno” veio do latim “hiems” — é irmão de “hibernare”, filhos desse mesmo pai etimológico.

Do pai, chegamos ao avô: “hiems” remonta à raiz do protoindo-europeu “*gheim-”, que tinha o mesmo sentido, o nome da estação gelada. Dormimos muito, também sonhamos: as “quimeras” das nossas imaginações vêm desse mesmo lugar remoto na etimologia, “*gheim-”.

Isso porque antes de querer dizer “fantasia” ou “coisa sonhada”, “quimera” tinha outro sentido: era o nome de uma criatura mitológica. Em grego queria dizer, literalmente, “cabra de um ano de idade”. Muitos povos antigos contavam os anos em invernos — “um ano de idade” traduzido ao pé da letra era “um inverno de idade”; no antigo idioma anglo-saxão, o termo “wintercearig” podia querer dizer “triste com o inverno” ou “triste com o passar dos anos”; na língua dos esquimós do Alasca ainda funciona assim, “ukiuk” significa tanto “ano” como “inverno”.

Entre dezembro e janeiro, isto é, no meio do inverno no hemisfério norte (de onde vêm os esquimós e todas as línguas derivadas do protoindo-europeu), o céu é regido pelo signo de capricórnio. Na astrologia tradicional — como a dos antigos romanos e gregos —, o capricórnio é representado como um animal duplo: da metade para cima é uma cabra, da metade para baixo, um peixe. Pertence a dois mundos: as montanhas e o mar.

Parecida com o capricórnio, a “quimera” mitológica também era um bicho múltiplo: tinha corpo de cabra, cabeça de leão, cauda de cobra e uma boca que cuspia fogo — pelo menos segundo a descrição de Homero na “Ilíada”. Foi derrotada por um herói que vinha a cavalo — mas era um cavalo alado, parte equino, parte ave. Chamava-se Pégaso.

Animais do inverno, animais complexos: são multiformes, multifacetados ou metamórficos. E não só na mitologia: nas terras do norte da América — onde vivem muitos dos povos esquimós — vive também uma lebre que se transforma com a chegada do frio (a “lebre americana”, ou “ukallik”, como é chamada pelos esquimós do Alasca). No calor, ela tem a pelagem marrom; com a chegada do inverno, fica branca, e se confunde com a neve.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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