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Ex·pec·ta·ti·va

É comum dizerem que não devemos “criar expectativas”. Fala-se muito, também, que se deve sempre ter “esperança” (e que ela é a última que morre). Mas é difícil sustentar as duas ideias ao mesmo tempo: os sentidos de “expectativa” e “esperança" se cruzam e se confundem. Como seria possível, então, ter esperança sempre, mas expectativas só de vez em quando? Na prática, as duas palavras são muito parecidas.

Não é de hoje que os falantes de português juntam os sentidos e usos das duas palavras. No século 18, existia o substantivo “espectativa”, que já não é mais dicionarizado: referia-se à esperança, e mais especificamente à esperança de se receber uma boa herança. Talvez pela semelhança de pronúncia, confundimos “expectativa" e “espectativa" até o ponto de sobrar apenas a primeira; seu significado, no entanto, desliza pelas duas palavras. Tem um bom tanto de “espectativa”, isto é, de “esperança”, dentro de toda “expectativa”. Não se sabe em que momento isso pode ter acontecido: um outro dicionário do mesmo século oferece como explicação para “espectativa" apenas a “expectativa”, mostrando que as palavras já se confundiam a ponto de serem sinônimas. E um terceiro, publicado quase cem anos mais tarde, em 1832, traz apenas o termo com “s”, mas não o com “x”, como se ele tivesse deixado de existir ou de ter importância.

“Esperança”, assim como “esperar”, remonta ao protoindo-europeu “*spe-”, que significa “prosperar”, “florescer”. Quando olhamos de perto para as palavras, os sentidos se multiplicam: “esperar” já é, em si, um termo complexo. Porque existem, por assim dizer, duas “esperas”, uma forma mais nobre de espera e uma corriqueira. A segunda “espera” é a que medimos no relógio e que se manifesta nas filas e salas-de-espera. A primeira, porém, vem com a fé e otimismo da esperança: podemos esperar por mudanças e melhorias, por exemplo. Pedro Pedreiro, o personagem de Chico Buarque, vive dentro da ambiguidade da palavra: ele espera e espera o trem, o aumento, o sol, a sorte e a morte.

Uma curiosidade: dessa mesma raiz de onde tiramos “esperar”, os falantes de inglês inventaram “acelerar”. É de “*spe-” que vem “speed”, “velocidade”.

Mas voltando à “expectativa”. Enquanto “esperança" tem a ver com “prosperidade”, “expectativa” vem da “observação”. De “ex” + “spectare”, em latim, “observar completamente” (como “respeitar”, “re" + “spectare”, quer dizer “olhar de volta”). Daí que se fale em “expectativa de vida” de uma determinada população (e apenas muito raramente, “esperança de vida”), calculada a partir de dados observáveis. A princípio, “criar expectativas” não tem a ver com criação, e sim com o olhar. Pela origem da palavra, “expectativas” não vêm com “esperanças”, e ninguém “cria expectativas” do nada; mas pelo funcionamento das línguas, ninguém se comunica apenas pelas origens das palavras.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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