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Ci·da·de

Primeiro veio a pessoa: “civis”, nome em latim para os sujeitos livres que viviam nas cidades. Depois, sua qualidade: “civitas”, ���cidadania”, donde veio a “civilização”. Foi só no latim tardio que, da pessoa e suas qualidades, chegou-se à delimitação de seu lugar: “civitatem” ou, em algumas variantes, “citatem”. Antes disso, em latim, as cidades eram chamadas de “urbs”, que em português gerou “urbano”. Mas sua origem é desconhecida. Não há uma raiz específica no protoindo-europeu para “cidade”.

A raiz reconstruída de “civis" é “*kei-”. Significa “deitar-se”, “dormir”. Como sentido derivado ou secundário, “*kei-” é também o nome dado à pessoa amada e querida. “Toda pessoa que dorme é bela”, escreveria o poeta Walt Whitman em meados do século 19 na ilha de Manhattan (“Everyone that sleeps is beautiful”, do poema “The sleepers”, “Os adormecidos”).

A raiz “*kei-” foi reconstruída a partir dos seguintes termos: do grego “keisthai”: “dormir”, “deitar-se”; do sânscrito “Sivah”: “gracioso”, “auspicioso”; do latim “cuna”: “berço”; do antigo eslavo eclesiástico “semija”: “família”, “criados domésticos”; do lituano “šeima”: “criados domésticos”; do letão “sieva”: “esposa”; do inglês medieval “hiwan”: aqueles que “pertencem ao mesmo lar”. As cidades são aglomerados de casinhas e pessoas sonadas — são graciosas, supõe-se. Ainda que a palavra “cidade” aponte para o território da vida pública, seu passado etimológico remete à vida íntima, confundindo esposas, criados e berços sob um mesmo teto e um mesmo sono.

Mas em outro sentido, é à “cidade" que as palavras vão quando querem virar substantivos abstratos. O adjetivo “feliz” passa a ser “felicidade” e “multiplicando”, chega-se à “multiplicidade”. Na verdade, o sufixo é “-dade”, mas quando a raiz da palavra termina com “s”, “c” ou “z”, ela ganha uma “cidade” na ponta. Foi isso o que o poeta Augusto de Campos percebeu quando escreveu “Cidade, city, cité”, em São Paulo, em 1963 (mais de cem anos após Walt Whitman):

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofuahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivora

cidade

city

cité

“Cidade” em português, “city” em inglês e “cité” em francês significam a mesma coisa, e cumprem a mesma função como sufixo em suas respectivas línguas. O compilado de raízes que Augusto de Campos encontrou serve para compor palavras com sentidos idênticos nos três idiomas —

atrocidade atrocity atrocité

caducidade caducity caducité

capacidade capacity capacité

Etc.

Podemos ouvir o poeta lendo aqui — o poema é um aglomerado de sons e sentidos que passam por nós correndo, muitas vezes rápido demais para que possamos compreendê-los. O poema imita a vida: são assim os dias na cidade — pelo menos quando estamos acordados.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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