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A·li·men·ta·ção

A palavra “alimentação” remonta ao latim “alere”. Um pouco como no português atual, o termo em latim tinha mais de um sentido, porque nem sempre era usado para falar literalmente de comida. “Alere” podia servir como “fazer crescer”, “apoiar”, “sustentar”, “aumentar” e “criar” (no sentido de “criar um filho”). É desse mesmo verbo que recebemos “adolescente”, que é aquele que “está crescendo”, “sendo nutrido”. Recebemos também “adulto”, o particípio passado do “adolescente”, isto é, aquele que adolesceu até não poder mais: que, enfim, cresceu. Além desses, de “alere” veio também “aluno”, que é quem está sendo nutrido (era também um termo para “criança de peito”).

“Alimentar” é diferente de “comer”, que desde o latim “edere” não mudou de significado. Em “alimentação”, há mais coisas acontecendo, o termo é mais carregado. Remonta ao protoindo-europeu “*al-”, que em alemão deu “alt”, em holandês, “oud”, em inglês, “old”: “velho”, “antigo”. Em algum recanto de “alimentação” existe um movimento do tempo. Dentro da palavra, processos acontecem, coisas amadurecem, se transformam. De “*al-”, por sinal, vieram as palavras germânicas para “mundo”, como “world” em inglês e “welt” em alemão, que significam, etimologicamente, “a idade do ser humano”.

“Edere” é muito mais direto: sua origem reconstruída no protoindo-europeu é “*ed-”, que também queria dizer a mesma coisa. Duas palavras que derivam daí: “escarola”, do latim medieval “escariola”, e “alfafa”, de “al-fisfisa”, árabe para “forragem nova”. Desta última, podemos chegar em “*ekwo-”, protoindo-europeu para “cavalo” (o caminho é pelo antigo idioma iraniano, “*aspa-sti-*).

Os cavalos comem pasto, os humanos comem pão (“pastus” e “panis” em latim; “*pa-” pela raiz do protoindo-europeu). “Pão é amor entre estranhos”, escreveu Clarice Lispector; e “companheiro” é com quem dividimos nosso pão, “com” + “panis”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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