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Pes·qui·sa

Não é sempre que o sentido etimológico de uma palavra coincide com seu sentido atual. Por exemplo: a própria palavra “etimologia” vem do grego “etymon" + “logia”, o “estudo do sentido verdadeiro”. Mas, hoje, “etimologia" é o campo de pesquisa das variações históricas das palavras, não da verdade última delas. O falante de português que quisesse dizer “calma” com o sentido grego de “grande calor”, não estaria sendo mais verdadeiro, estaria apenas sendo confuso.

Os etimologistas pesquisam. Isto é, etimologicamente, os etimologistas "fazem todas as perguntas”, “procuram completamente”. “Pesquisa" vem do latim “per"+“quaerere”. “Per”, como em “percorrer”, “perfurar”, “perverter”, indica que algo foi feito completamente, ou que se atravessou por algo. “Quaerere” era um verbo comum em latim e significava “perguntar” e “procurar”; os verbos “questionar" e “inquirir" vêm daí e guardam bastante do sentido original (assim como os substantivos correspondentes, “questão”, “inquérito"). Mas o “quaerere" teve outros descendentes na nossa língua: “conquista”, “aquisição”, “requisito”, “quesito”. De todos, o que se manteve mais parecido com a forma do latim é o verbo “querer” — que, no entanto, não se manteve tão próximo no sentido.

Em latim, para “querer”, usava-se o verbo “velle”, que em francês virou “vouler”, em italiano, “volere" e em romeno, “vrea”. Não se sabe ao certo por que em português e espanhol optamos por abandonar o “velle” e atualizar o “quaerere”. A transformação foi lenta. Desde o século 8, os dois verbos já apareciam juntos como sinônimos. Ainda no século 13, porém, o poeta castelhano Gonzalo de Berceo usa os termos “sivuelqual”, para “qualquer”, e “sivuelquando" para “qualquer dia”. “Si” + “vuel" corresponderiam a “se” + “quer”. Pelo motivo que foi, “velle" sumiu como verbo central na nossa língua; permanece, porém, em palavras como “benevolência”, “vontade" e “voluntário".

Etimologicamente, portanto, “querer" significa “perguntar”, “procurar”. Esses não são os sentidos que a palavra guarda hoje, não são a verdade da palavra. Mas acontece que, verdadeiro ou não, é um jeito interessante de revisitar o termo. E embora “pesquisar” e “querer" tenham idades diferentes no português, poderíamos de todo modo olhar para elas entrevendo a afinidade de origem. “Pesquisar”, assim, poderia ser uma maneira de querer completamente; e “querer completamente” poderia ser um percurso aberto à pesquisa.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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