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In·ter·va·lo

Pensemos então sobre intervalos. Eles são uma boa ocasião para o pensamento. Além da pausa, do recorte no tempo, do descanso que oferecem, eles nos mostram algo sobre como é pensar, sobre a língua com a qual pensamos.

A palavra começou no latim, “intervallum”, e servia, a princípio, para descrever o espaço entre as paredes ou muros de uma fortificação: era um termo do vocabulário militar. “Vallum” pode ser traçado de volta ao protoindo-europeu “*walso”, um “suporte”, um “pilar”. É de onde veio “wall”, “parede” e “muro” em inglês.

Mas olhando além dos muros, vemos que um “intervalo" pode ser muitas coisas. O dicionário lista dez opções:

  1. espaço ou distância entre dois lugares;
  2. espaço de tempo entre dois momentos;
  3. interrupção passageira;
  4. interrupção de alguma atividade para descansar;
  5. no esporte, aquilo que separa um primeiro tempo de um segundo;
  6. o horário comercial no rádio ou na TV;
  7. o entreato do teatro;
  8. na física, a razão entre as frequências de duas ondas sonoras;
  9. na matemática, o conjunto dos números reais existentes entre dois outros;
  10. na música, a distância entre duas alturas, ou entre um som mais grave e um mais agudo.

Algumas das coisas que aparecem na lista são bem concretas — as distâncias entre dois lugares ou entre duas ondas — e outras, abstratas — os intervalos no tempo, nos números. Qual o pulo que uma palavra tem que dar para sair de um contexto militar e vir a se inserir em tantos papéis? Em algum momento incerto da história, pegamos sua imagem original — a de ser a separação entre uma coisa e outra — e a usamos para representar outras ideias. O nome disso é metáfora. As línguas costumam ser cheias delas; mas muitas metáforas ficam escondidas. Quando duas pessoas “discordam”, por exemplo, elas separam seus corações, “dis” + “cor" (“coração”) — não estamos falando literalmente.

A língua tende a ficar especialmente metafórica quando precisamos falar de coisas intangíveis, invisíveis, incompreensíveis — como é o caso do tempo. Podemos não perceber, mas quando pensamos ou falamos sobre o tempo, usamos muitas imagens que vêm de outros campos: usamos metáforas. “O tempo está correndo”, “o tempo está arrastado”, “estou perdendo tempo”, “tenho tempo de sobra”: às vezes o tempo tem pernas, às vezes ele é uma coisa. É muito comum que, querendo nos referir ao tempo, apontemos para o espaço. Os relógios, por exemplo, traduzem o tempo nos pontos de uma circunferência; os calendários modernos traduzem-no em quadradinhos ou fileiras. Assim, nós nos “localizamos” no tempo.

Os “intervalos” partiram de uma imagem espacial e vieram se misturar às nossas ideias sobre o tempo. Eles encontram companhia na proximidade do “ao longo do tempo” (de repente o tempo é comprido!), e do “daqui a pouco”, que, aliás, dificilmente responderia se alguém o chamasse por seu nome impecável, “dagora a pouco”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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