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Pla·ne·ta

“Planeta” chegou ao português igual a como era em latim, “planeta”. Veio da expressão grega “asteres planetai”, “astros que vagueiam”, ou “astros ambulantes”. A princípio, seu correspondente em latim era “stellae errantes”, “estrelas errantes”, e daí poderíamos imaginar um outro nome possível para “planeta”: “errante”. O latim tardio, porém, tomou de empréstimo o termo grego e ele permanece em nosso vocabulário até hoje, mas com seu sentido etimológico oculto.

Os planetas eram chamados assim porque pareciam ter movimento, ao contrário das estrelas que pareciam ficar paradas. Para os gregos, isso significava que o Sol e a Lua também eram “planetas”. Foi apenas na Renascença que a palavra passou a designar os corpos que orbitam em torno de estrelas.

E “orbita”, durante a Idade Média (no latim medieval e também no francês antigo, “orbite”), se referia apenas à cavidade do olho. Mas antes disso, em Roma, “orbis” tinha também um sentido celestial muito parecido com o que usamos hoje (já “orbita” era o traçado que uma roda fazia na terra, e “exorbitare”, de onde vem “exorbitante", era sair do curso). Quando os astrônomos ingleses do século 17 precisaram de uma palavra para descrever a trajetória dos planetas, empregaram “orbit”, recorrendo ao sentido mais antigo; retraduziram para a língua deles um sentido que havia na etimologia, mas que há muito estava esquecido. Seria mais ou menos como dizer, hoje, que alguém que vagueia está “planetando”, ou como trocar “vagabundo" por “planeta”.

Nessa sequência, podemos também lembrar que “mundo” é o contrário de “imundo”. Em latim, “mundus” era ao mesmo tempo o mundo em que vivemos e aquilo que é limpo, elegante. Era o correlato do “kosmos” grego, que é tanto o universo como a beleza e, de modo mais geral, “kosmos” é o oposto do caos. O “mundo” de origem latina remete a algo amplo, muito maior do que as nossas vidas. Diferente do que acontece etimologicamente com as línguas germânicas, em que a palavra para “mundo" (“Welt” em alemão, “world” em inglês, “wereld” em holandês, “vårld” em sueco, “verden” em dinamarquês) é uma combinação do proto-germânico “*wer”, que significa “homem” e “*ald”, “idade”. O mundo, para eles, é literalmente a “idade do homem”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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