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Pro·fes·sor

O “professor” tem parentesco etimológico com as “profecias”, as “sinfonias” e o “telefone”; está ligado à “profissão”, à “infância”, à “confissão” e ao “fado” português. Isso porque todas essas palavras remontam, numa origem muito distante, ao protoindo-europeu “*bha-”. Aliás, mais do que distante: é uma origem hipotética. Essas raízes do protoindo-europeu são grafadas com um asterisco no começo para mostrar que elas nunca chegaram a ser comprovadas, mas sim reconstruídas historicamente.

Nessa reconstrução, “*bha-” significa “falar”: o “professor” é quem fala (ou quem “professa”); a “sinfonia” é quando todos falam junto, em harmonia; o “telefone” é para “falar longe”; a “profissão” é o falar em público (mais especificamente, é declarar a própria fé); na “infância” ainda não se fala (“in” é partícula de negação); na “confissão”, fala-se “com” alguém; por fim, o fado entra na lista não pela fala, mas por relação com o “destino”, “fatum”, em latim (porque o “destino” é o que está dito).

Isso tudo para dizer que a etimologia das palavras não revela uma verdade final sobre elas — se reduzíssemos todos esses termos a um sentido “verdadeiro” de “fala”, não chegaríamos a grandes lugares. A etimologia revela apenas algo da cara que as palavras tiveram ao nascer. Assim, o “professor” não é nem verdadeiramente, nem necessariamente, nem somente aquele que “fala” ou “professa” algo.

Mais sobre esse nascimento das palavras: se o “professor” é quem “ministra” aulas, ele teria algo de semelhante com os “ministros”. Em latim, “ministrare” é basicamente “servir”, e vem de “minus”, “minor”, isto é, o “minister” é o assistente menor.

A etimologia não revela o sentido real das palavras, mas pode servir para cutucar o pensamento ou ajudar a demarcar territórios. O “professor” é também quem “educa”. De “ex” + “ducere”, “conduzir para fora”, o “professor” ou “educador” é quem leva o outro além.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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