Ir direto ao conteúdo

Tra·ba·lho

Existem duas hipóteses para a origem de “trabalhar”. A primeira, mais amplamente aceita, traça um caminho de volta ao latim vulgar “tripaliare”: significa “torturar”. Remonta ao “tripalium”, um instrumento de tortura; de “tria” + “palus”, “três estacas”. “Palus” vem do protoindo-europeu “*pag-”, que significa fixar algo — por acaso, é de onde vieram a “paz” e o “pagamento”.

A segunda hipótese para “trabalho”, proposta pelo filólogo Walter Skeat, remonta ao verbo latino “*travare” (o asterisco indica que o termo não foi comprovado, e sim deduzido). Segundo ele, “travare” seria como nosso “travar”, e viria do latim vulgar “*barra”. Em inglês, “*barra” gerou “embarrass”: “envergonhar”, “constranger”, colocar uma barra no meio do caminho da pessoa — ou, melhor dizendo, da sua autoestima.

Coincidência: Skeat relaciona “*travare” ao termo protoindo-europeu “*terkw-”. A princípio, significa “torcer”; mas é também a origem de “torturar”. Por dois caminhos diferentes, chega-se ao mesmo ponto.

Em português medieval, aparece um outro verbo que se relaciona ao “tripalium” e suas torturas: “trebelhar”. Significa “brincar”, “jogar”: seu uso vai desde o tabuleiro de xadrez — as peças do jogo se chamam “trebelhos” — até o Livro de Gênesis: numa tradução medieval, Isaque “trebelha” sua mulher Rebeca quando pensa que ninguém está olhando (“E a cabo de muytos dias teve memtes elrei Abimelec per huũa fresta e vyo Isaque trebelha com sua molher Rebeca” — “Ao fim de muitos dias, o rei Abimeleque teve a ideia de olhar por uma fresta, e viu Isaque acariciando sua mulher, Rebeca”, Gênesis 26:8).

Do Antigo Testamento veio também Jó, que em inglês se chama “Job”, mas que não tem a ver com os “jobs” de hoje, que vieram do inglês, e não do hebraico. Do inglês renascentista, “jobbe of work” era um “pedaço de trabalho”, por oposição aos serviços contínuos. No século 18, “job” aparece dicionarizado como “negócio baixo” e “mal-pago”.

E os “freelas" ou “frilas” vêm do inglês “freelance”: uma “lança livre”. O termo aparece pela primeira vez em escrita no romance “Ivanhoe” (1820), do escocês Walter Scott, como nome dos soldados que não pertencem a um exército fixo.

Os termos do inglês vêm pouco a pouco substituindo nossos “fazer um bico” e “biscate”, de origem incerta, mas que podem ter a ver com a ideia de que quem não tem trabalho fixo recebe só o suficiente para comer — para dar umas bicadas.

A origem do trabalho para os anglófonos é menos tortuosa e torturante do que a nossa. “Work” remonta ao protoindo-europeu “*werg-”, simplesmente “fazer”. A tortura do “tripalium” ficou associada para eles com o ato de “viajar” — “to travel”, do francês antigo “travail”, um “tormento” ou “trabalho árduo”. Aliás, na cultura pop — de Ru Paul a Rihanna, ou Britney Spears e Missy Elliott —, “work” pode passar longe do “tripalium”, e fazer referência a sexo, sucesso e, só às vezes, a trabalho; e a expressão recente “werk" (de pronúncia igual) foi o jeito que eles encontraram para conseguir dizer “arrasa”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: