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In·di·fe·ren·ça

É muito fácil fazer uma palavra virar do avesso: basta casá-la com um prefixo negativo e ela é obrigada a sair por aí com seu sentido ao contrário. Pegue “esperança” e junte com “des-”: “desesperança”. Ou faça o “responsável” ficar “irresponsável”, o “justo" virar “injusto”. Na maior parte dos casos, as palavras não têm como se defender.

Na maior parte dos casos — isto é, não em todos. Às vezes, pode-se tentar fazer isso com uma palavra, mas o que acontece é que ela vira outra coisa, escapa por um terceiro caminho. É o caso de “indiferente”. No sentido mais usual da palavra, dizer que alguém está “indiferente” numa dada situação não é dizer que ela está “o contrário de diferente”. Ela está, na verdade, o contrário de “apaixonada”, de “comovida”, “indignada”, e por aí vai. E, do outro lado, o contrário de “diferente” é simplesmente “igual” (mas “desigual”, por sua vez, também é outra coisa).

Se algumas palavras não correspondem com os próprios contrários, pode ser sinal de que elas já têm de antemão mais de um sentido dentro de si. Só que esses sentidos variados podem estar escondidos.

Desmontar e remontar afixos, raízes e origens pode ser um jeito de evidenciar isso (para voltar ao assunto: “diferença” vem do latim “differre”, que significa “separar”; de “dis-” + “ferre”, “carregar para longe”). Outro jeito é prestar atenção nos usos das palavras: no tom que elas assumem quando passam de um falante para outro, ou de um contexto para outro.

A palavra “dó”, por exemplo: segundo o dicionário, é sinônimo de “compaixão”. Mas alguns falantes entendem que “dó”, ao contrário de “compaixão”, é um sentimento ruim, porque existe algo de condescendente nele. Talvez tenha mais do que um sentido escondido dentro do sentimento de dó, e seria interessante investigar por quais caminhos ele se desdobraria. Um dos antônimos de “compaixão”, aliás, é “indiferença”. Mas “indiferença” não funciona muito como antônimo de “dó”. É difícil pensar em algum termo que funcione — um que seja “des-dó”, que dê conta dessa mistura de amor ao próximo com um quê de arrogância.

Talvez seja necessário criar uma palavra para o contrário de dó — talvez ela já esteja sendo criada. Porque as palavras estão sempre sendo inventadas ou reabilitadas, como é o caso do adjetivo “desumilde”. Ele já existia no português desde, pelo menos, a segunda metade do século 19. Mas é só a partir de 2007 que a começa a ser usado com frequência — e de lá para cá, só cresce (pelo menos de acordo com o Google). Já tínhamos “arrogante”, “metido” e “imodesto”. Mas de tempos em tempos, os falantes sentem falta de palavras novas, com outros tons ou para contextos diferentes. Dificilmente somos indiferentes à nossa língua.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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