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Pri·va·ci·da·de

A “privacidade”, isto é, a qualidade daquilo que é “privado”, veio do latim “privatus”, particípio passado do verbo “privare”: os cidadãos privados “são aqueles que não mantêm cargos públicos”. Isidoro de Sevilha, no século 7, entende que isso quer dizer que eles estão “liberados” (“privatus”) dessas funções. Podemos pensar, por outro lado, que a “privação” do sujeito vai no sentido de separar-se dos outros, separar-se do público.

A pessoa privada, em latim, é um “individuus”, “indivisível”, pois já é uma unidade mínima em si mesmo. Em grego, o aspecto privado da vida de uma pessoa, ou sua particularidade, é “idios”. “Idioma” (idêntico em grego e latim) é a língua particular, “idiossincrasia” (forma grega: “idiosynkrasia”) é a mistura de características particulares. E “idiota” (grego, “idiotes”) é o mais privado de todos: é aquele que não se insere no mundo público (mas séculos mais tarde e em português, um dicionário de 1789 registra sob o verbete “Público” que “mulher pública” é sinônimo de “meretriz”).

Levou muito tempo até que a “privacidade” passasse a ser um direito de todo cidadão. Foi em 1890, nos Estados Unidos, que se registrou pela primeira vez o “direito à privacidade”: resumidamente, é o “direito de ser deixado a sós” (nossa Constituição de 1988 diz que a “vida privada” e a “intimidade” são invioláveis).

Ainda no século 17, por exemplo, podemos ver que o uso de “privado” era outro: servia mais para designar uma classe específica de cidadãos, aqueles que não atuam na ordem pública. Numa peça inglesa de John Dryden, um personagem pergunta a outro:

— E como você, homem privado, tem coragem de amar uma rainha?

Ser um sujeito privado ou público eram categorias muito mais estáticas. É difícil definir as coisas com tanta clareza hoje. É no âmbito público ou privado que montamos perfis nas redes sociais? E quando caminhamos pela rua ouvindo música nos fones de ouvido? Ou quando lemos mensagens de WhatsApp dentro de um ônibus? Os reality shows que exibem publicamente as vidas privadas das pessoas estão fazendo o que com as categorias de “público” e “privado”? Talvez essas perguntas acarretem em outra, parecida: o que acontece hoje entre os limites da “privacidade” e seu contrário, a “publicidade”?

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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