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De·sen·vol·vi·men·to

A palavra “desenvolvimento" se mexe muito: “des" + “en"+ “volv(i)” + “mento”. Cada uma dessas partículas remete a uma ação; e quando separadas, elas têm mais de um sentido. Todas vêm do latim: “des-” pode tanto ser uma variação de “dis-”, que aponta para um afastamento (como em “dissociar") ou oposição (“discordar”); como pode ser uma junção de “de-” + “ex-”. Se optarmos por esse caminho, aí os sentidos são outros: “de-” é um movimento de queda ou diminuição como em “decrescer”, e “ex-”, como em “exterior”, seria algo que vai para fora: “de-” + “ex-” seria cair para fora, cair para longe. Estas são só opções para o primeiro prefixo de “desenvolvimento”.

Em seguida “en-”, variação de “in-”, faz um movimento para dentro, como em “interior”, “importar”. Depois, a raiz “volv-“ traz a ação de rolar, girar, voltar: de modo geral, “volv-” é útil para quem quer fazer as coisas circularem. E o sufixo “-mento”, no final, faz um verbo virar um substantivo, mantendo nele uma ideia de ação (“descobrimento”, “armazenamento”).

Quebrando a palavra assim, temos uma coreografia para o “desenvolvimento”: um passo para dentro, um passo para fora e sair rolando além. A coreografia do “subdesenvolvido" é outra: “sub” começa de baixo para cima, “des”, vai saindo desde dentro (“en”), até rolar para fora, “volv”.

O verbo latino “volvere” teve muitos filhos. “Vulva” vem provavelmente daí, como algo que “envolve”, um “invólucro”. “Revólver" também, por causa do tambor giratório. “Revolver”, sem o acento, já foi um verbo muito usado em português antigo, como aparece nesta tradução de 1558 do Livro de Jó (38:1):

“Respomdeo o Senhor Deos de demtro do revolvimento do vento e disse-lhe:

Quem he este que revolve as sentenças com palavras nam sages?”

[“Respondeu o Senhor Deus de dentro do redemoinho e lhe disse:

Quem é este que deturpa meus desígnios com palavras sem conhecimento?”]

E “revolução”, a virada completa de tudo, veio primeiro do movimento aparentemente circular dos astros. No século 7, santo Isidoro de Sevilha afirmou que o Sol ficou quente de tanto girar — de tanto produzir o fogo da revolução.

Há algo em nossa língua que parece gostar de pôr coisas para rodar: é também esse movimento que está em “evolução”, “devolução”, “revolta”, “circunvolução”, “envolvimento”, “reviravolta”, “voltar”, “volteio”, “volume”, “volúvel”. É o movimento da pessoa “desenvolta”, aquela que, na definição do dicionário, se movimenta e se desenvolve à vontade. E, finalmente, está nos passos da “valsa”, mas por outro caminho: “volvere" remonta ao protoindo-europeu “*wel-”, que em alemão medieval virou “walzan”, depois “walzer”; o “er” do final em alemão soa como um “a” do português: e foi assim que se desenvolveu a “valsa".

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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