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Can·di·da·tu·ra

Os romanos eram o “povo da toga” — é assim que normalmente os imaginamos, é assim também que eles viam a si mesmos, “gens togata”. Virgílio, na “Eneida”, caracteriza seus compatriotas como “romanos: os mestres do mundo e o povo que veste toga”.

Não que a toga fosse a única roupa disponível em Roma — além delas, havia, por exemplo, uma série de túnicas, mantos e até mesmo calças —, mas as togas eram para os romanos um símbolo da identidade nacional. Ou, melhor dizendo, uma identidade dos cidadãos, porque seu uso era proibido aos escravos, estrangeiros e, exceto por alguns períodos, às mulheres.

As togas simples, chamadas de “toga virilis”, eram feitas em algodão não tingido. Mas existiam algumas variações: a “toga praetexta”, por exemplo, tinha as bordas roxas, e durante muito tempo era usada apenas pelos filhos dos patrícios e pelos magistrados, ou seja, era sinal de alto status social; a “toga picta”, cheia de bordados, foi a roupa típica dos generais vitoriosos; a toga escura ou preta era sinal de luto. Já a “toga candida”, na qual se esfregava cal até ficar o mais branco possível, era a roupa oficial dos “candidati”, os candidatos a cargos públicos. Os candidatos são literalmente os homens que vestem branco (o sufixo “ura” de “candidatura” serve para transformar alguns verbos latinos em substantivos abstratos).

O nome vem do verbo “candere”, que significa tanto “brilhar” (como em “incandescente”, “acender” ou “incenso”), como “ser branco”, e por associação, “puro”, “inocente”, ou, passando quase que direto do latim para o português, “cândido”. Roupa imaculada, moral imaculada: era essa a associação que os candidatos buscavam incutir na mente dos eleitores.

The Candid Candidate”, “O candidato cândido” é o nome de um curta de animação de 1937 da personagem Betty Boop. É sobre um novo prefeito que vence as eleições, mas que logo descobre que o cargo tem muito mais a ver com trabalho do que com status. Sobrecarregado com a quantidade de problemas da cidade, acaba criando soluções que só são possíveis dentro de um desenho animado — como um limpador de para-brisa enorme que elimina de uma só vez todas as nuvens carregadas de chuva. No fim, é ovacionado por todos.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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