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Seria difícil traçar as histórias das línguas sem esbarrar em histórias militares. No caso do latim, foi em boa parte devido à expansão militar de Roma que a língua se espalhou pela Europa e se misturou aos idiomas dos territórios conquistados. Muito resumidamente, foi por causa desses militares e suas misturas que hoje há quem fale português, francês, italiano, espanhol e romeno.

Mas não foram só as guerras romanas que transformaram as línguas. Um exemplo ainda dentro do tema: a trajetória da palavra para “soldado” em francês. Começou com o latim “solidus”, nome de uma moeda romana. Dela veio “soldarius”, aquele que recebe a tal moeda — algo como o “assalariado”, o que recebe salário. Em francês medieval, porém, o termo para “soldado” era “soudier”, sem o “l” antes do “d”. Acontece que no francês atual, o “l" está lá, “soldat”. Isso porque, no começo do século 16, a França participou de guerras no território que hoje é a Itália, e acabou pegando emprestado do italiano antigo o “l”, inalterado desde o latim. E foi assim que “soldat” veio a ser uma versão nova da palavra francesa: uma versão nova que mais parecia a versão antiga, latina.

As guerras também acontecem no plano das ideias: no começo da formação da Igreja Católica, falava-se nos trabalhos da “ecclesia militans”, a “igreja militante”, aquela que atua no mundo, por oposição à “igreja triunfante” (no céu) e a “igreja penitente” (no purgatório). Os fiéis seriam, por consequência, “soldados” da igreja, mas o uso da palavra não era literal (pelo menos não até as cruzadas). Eles eram, antes de mais nada, soldados do espírito.

E na política, pelo menos desde as revoluções de 1848, na França, podemos ver algum vocabulário de guerra se transformando em metáfora: “militante” e “vanguarda” são dois exemplos. O segundo, que a princípio era o nome dado à tropa dianteira de um exército, hoje frequenta sobretudo a crítica de arte (como “as vanguardas modernas” ou “a vanguarda europeia”). Não são, enfim, as guerras literais que provocam todas as transformações das línguas; muitas vezes é em campos de batalha bem diferentes — e metafóricos — que elas se desenvolvem.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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