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Ou·to·no

É confuso pensar em “outono” no Brasil. A palavra veio direto de Portugal para cá, e não se aclimatou totalmente à estação brasileira. O outono não é sempre igual: o que acontece no clima de Manaus nesta época do ano é diferente do que acontece no clima de Porto Alegre, de Campo Grande ou Fortaleza.

“Outono” veio do latim “autumnus”, que também se transformou no nome da estação em inglês, francês, romeno, italiano e espanhol: respectivamente, autumn, automne, toamna, autunno, otoño (as regras que regem o romeno fizeram o “t” saltar do lugar).

Mas as palavras trazem consigo mais do que significados puros. Elas carregam uma rede de associações, são parte de uma visão de mundo. O outono do hemisfério norte faz pensar no final do ano que se aproxima e nas conclusões que ele traz. Para os romanos, "autumnus" é a época da colheita, dos signos de Libra, Escorpião e Sagitário, da “bile negra” dos melancólicos, do elemento terra e do planeta Saturno. Se tivéssemos uma palavra unicamente brasileira para “outono”, as associações seriam provavelmente outras.

Os linguistas discutem há muito tempo se nós percebemos o mundo de um certo jeito por causa das palavras que usamos ou se, ao contrário, usamos certas palavras porque, antes, percebemos o mundo assim. Em russo, por exemplo, azul-claro e azul-escuro são duas cores diferentes (“golubôi” e “sínii”), e não dois tons de uma mesma cor. Será que, por terem mais palavras, os russos têm uma maior capacidade de percepção? Em mandarim, o “mês que vem” é o “mês abaixo”, e o “mês passado” é o “mês acima” (“xià gè yuè” e “shàng gè yuè”): isso significa que a relação dos chineses com o tempo é mais vertical?

Se nós não tivéssemos herdado o termo europeu "outono", teríamos necessidade de chamar a este período por um só nome? Saberíamos percebê-lo de outra maneira?

De todo modo, é curioso que o “autumnus” tenha permanecido tão semelhante em diferentes línguas. O mesmo não acontece, por exemplo, com “verão” — “summer” em inglês, “été” em francês, “vara” em romeno, “estate” em italiano, “verano” em espanhol. É curioso porque, de certa forma, isso também está previsto na rede de associações de “autumnus". O deus do outono, para os romanos, era Vertumnus, deus que não coincide consigo mesmo. Ele não passa tempo demais dentro de uma mesma pele: sua característica principal, um pouco como o outono/autumnus, é a transformação; e, no entanto, seu nome segue sendo o mesmo.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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