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Con·fi·an·ça

“Confiar” é algo muito antigo. A palavra e o conceito já existiam em latim, com grafia e sentido parecidos, “confidere”, vindo do termo usado para “fé”, “fides”. Este, por sua vez, é traçado de volta à raiz do protoindo-europeu “*bheidh–”, que significa, no fim das contas, o mesmo, “ter fé”, “confiar”. Não são muitas as palavras que, como esta, parecem resistir à passagem do tempo.

“Federal”, por exemplo, que também vem de “fides” (passando por “foedus”, “tratado”) mudou de uso: era primeiramente um termo da teologia cristã, e significava fazer uma aliança com Deus (mas quando o Brasil se diz uma “federação”, a palavra não diminui o caráter laico da República).

Historicamente, a “confiança” pode ter a ver com religião, mas não só. Um tratado de iconografia italiano do século 17 define “confiança” como qualidade moral, e a representa com a imagem de uma mulher de cabelos soltos segurando um navio com as duas mãos. O texto que acompanha a imagem diz que o mar é turbulento, mas, com confiança, o navio consegue seguir viagem. Mas confiança em quê? A definição não delimita o campo no qual é possível empregar a confiança; a palavra é livre para ser colocada onde bem couber.

Ou melhor dizendo: a palavra é livre, mas a mudança de contexto pode às vezes fazer o sentido oscilar. Uma coisa é confiar em Deus, no destino ou no Estado. Outra coisa — pelo menos naquele período— é confiar em si mesmo. No mesmo século 17, os dicionários de língua inglesa registram os primeiros usos do termo “self-confidence”, que hoje significa “autoconfiança”. Mas se fôssemos traduzir corretamente, o mais apropriado seria “arrogância”. É por isso que, na peça “Júlio César”, de Shakespeare (escrita por volta de 1599), a esposa do personagem principal o adverte da seguinte forma: “tua sabedoria é consumida por tua confiança”.

A falta de confiança pode ser uma “desconfiança”, um “desafio” (“dis"+ “fides”, renunciar à fé), como pode ser uma “inconfidência” — como na Inconfidência mineira, que alguns preferem chamar de Conjuração mineira, alegando que é do ponto de vista dos governantes que o episódio pode ser visto como uma quebra de confiança.

Por outro lado, quando se tem confiança, é possível “pagar fiado” (de “fiar”, verbo antigo para “confiar”) ou assumir um noivado (“fiancé” e “fiancée” são respectivamente “noivo” e “noiva”, em francês). “Confiança” também está no nome de um sofá francês que foi moda no século 19, o “confident”: permitia que duas pessoas se sentassem bem próximas, com os rostos voltados um para o outro, de modo a trocar confidências, ou agir confidencialmente (existe uma variação do sofá com três ou mais lugares: é chamado de “indiscret”, “indiscreto”).

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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