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Mu·lher

Durante muito tempo se acreditou que o latim “mulier” vinha de “mollis”, o que faria das mulheres criaturas “macias”, “moles” e “molhadas”, praticamente “moluscos”. A falsa etimologia foi aceita por séculos: aparece, por exemplo, nas “Etimologias”, de Isidoro de Sevilha, do século 7, e numa peça de William Shakespeare, dez séculos depois.

Foi apenas com o aprofundamento dos estudos da linguística no século 19 que a associação “mulier”/“mollis” pôde ser descartada (embora esteja correta para “molusco”). No entanto, até hoje não há pistas para a origem do termo “mulier”.

Em latim, havia mais de um jeito de se referir às mulheres. “Femina” também servia para indicar os animais do sexo feminino (“fêmea”); “domina” era a mulher da casa (“dona”); “virgo”, a moça virgem; “uxor”, uma mulher casada nos termos da lei (fazia par com “maritus”, o marido). Mas pensar na mulher simplesmente como ser humano feminino, sem outros traços distintivos, é uma abstração curiosa, como também é o “vir”, termo usado para seres humanos do gênero masculino. “Hominem” era um termo neutro: no dicionário há o exemplo de “homines feminae”, que seria usual como dizer “ser humano de gênero feminino”.

A questão é: em que momento, ou por que razão, tornou-se necessário ter palavras específicas para se diferenciar o macho humano adulto genérico da fêmea humana adulta genérica? Se pudéssemos traçar “mulier” até suas origens, talvez encontrássemos respostas. “Vir” tem associações com “força” e “valentia” (como em “virilidade”), mas não é certo se essas qualidades estavam na raiz do termo, ou se foram se aproximando dele com o tempo e pelo uso.

Na etimologia do inglês, “man” também era neutro (como é até hoje em alemão), o que faz da mulher, “woman”, uma variação do neutro. Vem de “wifman”, ou “wyfman”, do inglês antigo, mas a origem de “wif”, como a de “mulier”, também é misteriosa. Não sabemos de onde ela veio, mas sabemos onde foi parar: com o tempo, “wife”, que designava apenas a “mulher” passou a significar “esposa”.

Por caminhos muito diferentes, não deixa de ser parecido com o que aconteceu no português, já que “mulher" se tornou sinônimo também de “esposa” (“homem”, como se sabe, não é sinônimo de “marido”).

As duas línguas, de um modo ou de outro, parecem esbarrar numa mesma dificuldade: pensar na mulher como pessoa adulta, sem mais amarras. Tanto o inglês antigo como o português atual se confundem na hora de distinguir a “pessoa adulta de gênero feminino” da “pessoa adulta de gênero feminino casada”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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