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Per·for·man·ce

Nos arquivos do jornal O Estado de S. Paulo, o termo “performance" aparece pela primeira vez em 27 de novembro de 1894, num pequeno texto sobre uma corrida de cavalos no jóquei de São Paulo. Ou melhor, no “jockey-club”, pois na época ainda escreviam “match” para “partida”, “handicap" para “desvantagem” e “performance” para “desempenho”. Em 1916, o Diário de Pernambuco registra sua primeira ocorrência de “performance” referindo-se à façanha de um aviador que, em plena Guerra Mundial, saiu de Nancy, no leste da França e sobrevoou a Alemanha à noite, recorde de distância percorrida sem escala. Pousou em território inimigo na Polônia, e, em parte porque ninguém acreditou que o feito fosse possível, acabou preso.

Em 1920, o Estadão registra novamente o termo, também na seção de esportes. Aparece em um texto sobre a Sociedade Colombophila do Brasil (“Colombus”+ “philia” = “pomba” + “amor”), em referência à pomba que conseguiu vencer todos os obstáculos de uma corrida de pombos-correio, apesar de ser “1/2 sangue” (metade do quê com quê, não diz). A palavra continua circulando nas seções de esportes dos jornais, com eventuais aparições em referência a motores de carro. É só em 1980 que se torna mais corrente, frequentando também os cadernos de cultura e de informática (a "performance da CPU" de um computador, por exemplo).

Se não soubéssemos o que significa “performance” e quiséssemos deduzir a partir desses contextos, chegaríamos em algo como “façanha”, “feito extraordinário”, uma palavra com tom de elogio misturado a algo de fascínio ou perplexidade (em 1960, “Performance" é o nome de perfume feminino). Mas aí, saltando para a década de 1990, seria difícil de entender o que é a “taxa de performance” dos bancos, cobrada em alguns tipos de fundos de investimento; nas artes plásticas, desde a década de 1970, chamar algo de “performance” é classificá-lo numa categoria específica, que não precisa ter a ver com elogios. E a “performance de gênero”, às vezes chamada de “expressão de gênero”, é um conceito importante para a teoria queer e o feminismo, que fala sobre por que nos comportamos do jeito que nos comportamos.

Pela diferença de significados ao longo das décadas, o que pode ter acontecido é que importamos a palavra mais de uma vez, já que não parece haver uma evolução orgânica de sentido no português. Ou como traçar uma linha coerente desde “feito extraordinário” para um termo específico das artes plásticas, para um serviço do banco e um comportamento social? Faz mais sentido pensar que a palavra foi trazida diretamente do inglês a cada uma dessas vezes. Até porque, em inglês, seu significado primeiro é muito mais maleável: é simplesmente “ação realizada”. Aliás, é bastante próxima ainda da origem — “parfournir”, do francês antigo, “fornecer completamente”, “prover”, “suprir”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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