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Sam·ba

Foi entre 1940 e 1950 que Luís da Câmara Cascudo compilou seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, até hoje tido como referência na área. O verbete “samba” (um dos poucos que não foi escrito por Câmara Cascudo, mas sim por Édison Carneiro), diz que os primeiros registros impressos da palavra são de 1838 e 1842, ambos no jornal satírico O carapuceiro (onde também se encontra uma das primeiras menções impressas à feijoada, chamada de comida “assassina”). Parece plausível: afinal, se a palavra era inusitada na linguagem escrita, não seria de todo estranho que ela aparecesse pela primeira vez numa sátira, onde há mais permissão para dizer aquilo que (supostamente) não deve ser dito:

“Aqui pelo nosso mato,Qu’estava mui tatamba,Não se sabia outra cousaSenão a Dança do Samba”

“Tatamba” significa “tosco” ou “bárbaro”: o que se entende da quadrinha é que, se, neste mato, o Brasil, dança-se samba, é porque não somos civilizados.

Os livros e reportagens mais recentes sobre as origens do samba concordam com o dicionário quanto à data, praticamente sem exceção. É num blog de um pesquisador independente, porém, que se pode encontrar provas diferentes, com ocorrências mais antigas e não irônicas da palavra.

Em 4 de agosto de 1830, no Diário de Pernambuco, o “samba" é associado à vadiagem: a matéria argumenta que de nada adianta castigar soldados indisciplinados enviando-os ao interior, porque lá só querem saber de pescar, subir em coqueiros e sambar. Duas décadas mais tarde, em 1856, numa notícia sobre o Ceará, “samba" aparece como sinônimo de “folia”, mas uma folia na qual “brigaram vários indivíduos”, e que resultou em oito ou dez pessoas com ferimentos graves. As notícias do final do século falam sobre o samba assim, como um sinônimo de “desordem” ou “baderna”. Em 1876, lê-se num relatório oficial da Bahia que dois soldados foram presos com a acusação de “meter-se em um samba”.

No fim do século 19, o que havia era sobretudo o “samba de roda”, do recôncavo baiano, uma forma de “umbigada” trazida pelos povos bantos escravizados. Na “umbigada”, os dançarinos ficam todos em roda, enquanto um vai à frente, e avança com a barriga contra a barriga de outro dançarino. Em quimbundo, “umbigada" é “semba”. A etimologia de “samba" é incerta; mas, de modo geral, supõe-se que o termo venha daí.

Embora o samba já não seja mais crime, as expressões atuais com a palavra têm ainda uma certa ambiguidade. Dizer que alguém “sambou" pode ser algo ruim (sinônimo para “bobeou”). Ou pode ser algo muito bom, como em “sambou na cara da sociedade”, expressão cujo uso primeiro continua desconhecido (até que alguém o encontre).

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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