Ir direto ao conteúdo

Po·e·si·a

“Poesia” não é a mesma coisa que “poema”. Mas ambas vêm do verbo grego “poiein”, que significa “fazer”. Daí vem também “hematopoiesis”, o nome dado na biologia para a formação das células sanguíneas. Assim como a medula, o poeta é um fazedor. Os dicionários, de modo geral, não fazem distinções claras entre “poema” e “poesia”. O do Google, por exemplo, afirma que o primeiro é “uma composição em verso” e a segunda, “a arte de compor ou escrever versos”. Os poemas em prosa, orais ou experimentais não encontram lugar nem na “poesia" nem no “poema”, segundo essas definições. E existe ainda a poesia desgarrada do poema, como na prosa poética. Segundo o poeta e crítico Octavio Paz, o poema é “o ponto de encontro entre a poesia e o homem”. Ele é um corpo possível para a poesia, que permite que ela exista no mundo. Mas “nem todo poema”, ele continua, “contém poesia”, do mesmo modo como existem gaiolas que não contêm pássaros. A poesia surge do poema, mas é aquilo do poema que não se deixa captar. Por exemplo: a escritora japonesa Sei Shonagon, que viveu entre os séculos 10 e 11, faz a seguinte lista de “temas para poemas”: “a Capital. A planta trepadeira kuzu. A espadana d’água. O cavalo. O granizo”. Mas quando a poeta portuguesa Matilde Campilho compara a leitura de um livro de poemas a uma ida ao jóquei, o cavalo que ela descreve não é o mesmo que o de Sei Shonagon. Já é algo que está mais próximo à qualidade de “poesia”: a corrida começa, ela diz, e o sujeito pensa primeiro em ganhar. Mas logo sua concentração muda, e ele se apaixona pelo cavalo. “E no percurso todo, o que interessa já não é exatamente ganhar, mas importa que o cavalo chegue direito e cuidado à meta. É um caminho para se fazer e para cuidar do cavalo porque é o cavalo que me leva a mim”.

Ou como o cavalo da poeta americana Chase Twichell:

“Nunca vi uma alma separada de seu gênero,mas gostaria. Gostaria de ver a minha assim,livre de suas rédeas femininas. Talvez fosse comoandar a cavalo. Quem monta é o humano,mas o que todos olham é o cavalo”.

Esses cavalos, a poesia, é o que o poeta William Carlos Williams em alguns versos localiza, mesmo sem precisar nomear:

“É difícil saber as notícias lendo poemas Mas todo dia há quem morra infeliz Com a faltaDo que se encontra lá”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!