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Com·par·ti·lhar

Por que compartilhamos coisas nas redes sociais? Não é uma pergunta de psicologia nem sociologia, mas de escolha de vocabulário: por que “compartilhamos” algumas coisas e “postamos” outras? “Compartilhar” pressupõe a participação de pelo menos dois sujeitos – duas ou mais pessoas podem compartilhar algo entre si, como nós “compartilhamos a água do planeta”, segundo a definição do dicionário. A palavra pertence ao campo semântico de “dividir”, “associar”, “participar”. “Postar a água do planeta” é difícil de imaginar: o verbo vem do inglês “to post”, que é afixar algo, como uma mensagem num mural (existe um outro verbo “postar" em português, que vem do francês “poster” e é mais antigo, significa tanto pôr algo no correio como ficar parado em pé, feito um poste). “Postar” está mais próximo de “exibir”, “anunciar”, “noticiar”.

A princípio, “compartilhar” é colocar um objeto no meio de duas ou mais pessoas, e todas passam a ter algum envolvimento ou responsabilidade com ele. “Postar” desenha um trajeto diferente para o objeto: ele parte de uma pessoa e vai em direção às outras, na forma de mensagem.

As redes sociais falam inglês antes de falarem português, e na língua de origem, “compartilhar” é “share”. Se a língua materna das redes fosse o português, é de se imaginar que as palavras poderiam ser outras – seria mais idiomático “mostrar” algo do que “postar”, ou até mesmo do que “compartilhar”. É que “share” é um dos verbos que mais ganhou uso no inglês americano das últimas décadas, mas isso depois de passar por mudanças ao longo da história. Entrou para o idioma em meados do século 16, vindo do inglês antigo “scearu”, que significa “corte”, “divisão” e até mesmo “tosa” (que é “shear” em inglês moderno, ainda parecido com a origem). Surgiu com três usos, dois ainda correntes e um terceiro esquecido. O primeiro, substantivo, tem o sentido de “parte de algo”, como uma ação numa empresa. O segundo é “dividir ou receber algo com os outros”, basicamente, “compartilhar”. O terceiro, este, sim, que caiu em desuso, era a “parte que divide o corpo”, no meio das pernas – “share-bone” já foi o nome para o que hoje chamamos de “osso púbico”.

No século 20, “share” ganhou o sentido de “confessar publicamente os próprios pecados”, e hoje é comum para um americano dizer “share one’s feelings”, compartilhar (ou confessar) os próprios sentimentos.

“Compartilhar” vem do latim “com” + “partire”, partir ou separar algo juntos. Por acaso, a etimologia é parecida com “share”, “cortar”. Apesar de virem de raízes diferentes, ambas as palavras têm ligação com “dividir”, não com “multiplicar” – e, no entanto, é este último sentido que parece mais apropriado para compartilhamentos das redes sociais, a ver pelos números que se multiplicam a cada vez que algo é compartilhado.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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