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Tri·bu·nal

“Tribunal" vem da “tribus" romana, uma unidade de divisão do Estado. Acredita-se que de início eram três, que designavam três etnias diferentes: os Ramnenses, Titienses e Luceres. Com o tempo, as tribos aumentaram, dividindo-se entre as urbanas e as rurais — no século 3 a.C., o número chegou a 35. Elas passaram a constituir uma divisão geográfica, não mais étnica. Cabia a cada tribo pagar impostos, recrutar soldados (desde que se pagasse por eles) e reunir-se em assembleias para decidir assuntos de interesse público. O voto das tribos mais ricas e que tivessem cidadãos mais velhos valia mais. Os cidadãos das classes mais baixas e os ex-escravizados costumavam ser inscritos nas tribos menos populosas, ou até nas rurais, ainda que vivessem na área urbana.

Uma das coisas que a existência de tribos sugere é que a comunidade romana era diversa e, ao mesmo tempo, unificada. A unificação é uma das palavras centrais para se pensar Roma, e podemos chegar nela a partir de duas chaves: a língua e a lei. O assunto é enorme, mas a pequena palavra “tribus” vale como ilustração mínima das duas.

Das tribos vinham os tribunos, encarregados de defender os interesses políticos, econômicos e religiosos dos que os elegeram – um pouco como os advogados nos dias de hoje. No ano de 494 a.C., uma série de revoltas dos plebeus de várias tribos acabou por instaurar o “tribuno da plebe”, que seria responsável por representá-los, protegendo seus direitos diante dos interesses dos patrícios. O tribuno era figura de ligação entre povo e autoridade, ou povo e Estado; o tribunal onde ele exercia seu trabalho serve como imagem dessa relação entre unidade e diferenças.

Esses movimentos entre grupos maiores e menores, ou indivíduos e coletividades, também estão presentes nos verbos do português que têm origem na palavra “tribus”: “Retribuir”, “contribuir”, “distribuir”, “atribuir”. Pela etimologia, um “atributo” é diferente de uma “qualidade” porque o primeiro remete a mais de uma pessoa – um atributo é atribuído a alguém –, enquanto o segundo pode dizer respeito a algo inerente – uma qualidade pertence a alguém.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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