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Nar·ra·ti·va

O sufixo “-ção” em português faz verbos virarem substantivos sem terem que abrir mão da ideia de movimento ou processo que tinham quando eram verbos: traição, confecção, ação. “Narração" é diferente de “narrativa" porque mantém algo da ideia de estar acompanhando os fatos à medida que eles acontecem. Como uma voz em off num documentário, que vai criando sentido e direção para as imagens.

Um texto qualquer pode ter ao mesmo tempo narrativa e narração, sem que as duas sejam a mesma coisa. Aliás, nem precisa se tratar de um texto. A narrativa é uma totalidade de eventos encadeados, uma espécie de soma final, e está presente por tudo: na sequência de entrada, prato principal e sobremesa de um jantar, em mitos, romances, contos, novelas, peças, poemas; no Curriculum vitae, na história dos nossos corpos, nas notícias, em relatórios médicos, conversas, desenhos, sonhos, filmes, fábulas, fotografias; está nas óperas, nos videoclipes, videogames e jogos de tabuleiro. A narração, por sua vez, é basicamente aquilo que um narrador enuncia.

Uma contagem de palavras na base de dados Ngram, do Google (que pesquisa o acervo de livros escaneados pelo Google Books) mostra uma mudança nos usos da narrativa. A palavra “narrative”, em inglês (o mecanismo não faz pesquisas em português), vem sendo cada vez mais empregada nas últimas décadas – seu uso hoje é cerca de quatro vezes maior do que era em 1950. A base de dados é alimentada sobretudo por fontes acadêmicas, o que indica que pesquisas científicas têm se interessado cada vez mais por o que são e o que podem ser as narrativas. Mas o sentido da palavra vem mudando.

O termo “competing narratives” – que nós chamaríamos de “disputa de narrativas” ou “narrativas conflitantes” – teve um boom dos anos 1980 para cá. É 200 vezes mais frequente hoje. Outra base de dados, a COCA (Corpus de inglês americano contemporâneo, na sigla em inglês) mostra que “competing narratives” aparece não só em pesquisas acadêmicas, mas também em boa parte em publicações sobre política.

A “disputa de narrativas” não costuma dizer respeito à acepção mais literária do termo, como “narrativa de um romance”. Fala antes sobre trazer a público diferentes formas de narrar o mundo, para que narrativas plurais possam ser elaboradas e disputadas. É um uso do termo que talvez aproxime “narrativa" de “narração”. Isso porque sugere que toda narrativa carrega em si um processo e um movimento, e que dentro dela há sempre sinais deixados pelas escolhas de um narrador.

“Narrativa”, “narração" e “narrar" vêm do latim “narrare”, que significa “contar”, “relatar”. Deriva de “gnarus”, que nos deu em português duas outras palavras, duas primas de “narrar”: “conhecer” e “ignorar”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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