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Na·tal

“Natal”, em latim, “natalis”, é próximo de “nação” (“natio”), porque ambas têm a ver com nascer (“nasci”) – como fica evidente quando falamos em cidade ou país natal. Em inglês, o dicionário Oxford registra outro significado para “natal”: aquilo que é relativo às “nádegas”. Do latim, “nates”.

No Brasil do início do século 20, no interior do Nordeste, as celebrações de Natal compunham um ciclo com festas e autos que duravam até dia 6 de janeiro, Dia de Reis. Uma das “danças dramáticas” (termo de Mario de Andrade) mais comuns era a “chegança”, proibida em Portugal por causa de seus movimentos de “anca contra ancas, peneirando-se, coxa contra coxas”. A dança, entre outras coisas, encenava uma luta entre cristãos e mouros, com os últimos sendo convertidos ao cristianismo. Uma de suas canções típicas diz “Entramos neste nau de guerra/ Todos nós com muita alegria,/ Pra festejar o Nascimento/ De Jesus, que é filho de Maria!”.

Danças proibidas e religião, guerra e alegria: “A festa do Natal representa assim o supremo renovamento e a aurora da redenção, a que todos os corações humanos confusamente aspiram”, escrevia Afonso Arinos na semana de Natal de 1949.

Na época, mais de um autor lamentava que as tradições populares corriam o risco de desaparecer – como a lapinha, teatro popular apresentado na frente de presépios. “Hoje, o pinheirinho nórdico e o Papai Noel internacional expulsaram de nossos lares descristianizados a lapinha tradicional. Os mitos remotos de Odin sobrelevam a tradição apostólica. Será que um dia perderemos a memória de nós mesmos e somente passaremos a encontrá-la nos arquivos dum folclore morto, esquecido pelo povo, seu criador e eterno transformador?”, pergunta-se o integralista Gustavo Barroso, unindo Natal e ideal de nação. “Papá Noel, fantasma branco importado da Europa pelos sentimentais enriquecidos e que dá a quem já tem os dons de quem não tem”, definia o anarquista Domingos Ribeiro Filho. O jornalista Jarbas de Carvalho discordava: “tudo em Papai Noel está impregnado de poesia”.

Para poesia natalina, podemos recorrer a Machado de Assis, com seu “Soneto de Natal”, do livro Ocidentais, e a Drummond, “Papai Noel às avessas”. Para prosa de Natal, um conto de Mario de Andrade, um de Lima Barreto e uma crônica de Clarice Lispector.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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