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De·fe·sa

“Defesa” permaneceu em português quase igual a como era em latim, “deffensa”. Faz par com “offensa”, ambas vêm da raiz indo-europeia “gwhen-”, que significa “matar” ou “atacar”.

Nas florestas da Guiana Francesa, foi descoberta uma espécie de cupim que se defende de modo peculiar. Quando a colônia dos Neocapritermes taracua está sob ataque, os cupins trabalhadores mais velhos são enviados à linha de frente, direto para as presas do inimigo. É que esses cupins produzem bolsas cheias de um líquido azul, que crescem em suas costas como se fossem uma mochila. Quanto mais velho o cupim, mais líquido ele terá produzido e armazenado. Quando um predador o ataca, sua saliva entra em contato com esse líquido, tornando-o imediatamente tóxico e fazendo a bolsa explodir. A toxina então paralisa o inimigo, mas o próprio cupim morre no processo. O que há de singular nesse mecanismo é a necessidade de participação do predador para ativar a toxicidade do veneno. Ofender e defender: um trabalho em conjunto.

Nós também não nos defendemos sozinhos. Biólogos em busca de uma avaliação quantitativa do “conhece-te a ti mesmo” dizem que o corpo humano é no máximo 50% humano. Outros dirão ainda menos: em quantidade de células, somos 10% humanos. O resto são bactérias, micróbios, fungos e tantos outros organismos invisíveis a olho nu. Mas essas células não humanas provavelmente estão nos ajudando: entre outras coisas, elas compõem nosso sistema imunológico, isto é, nos defendem. “Meu nome é legião, pois somos muitos”, é o que, do ponto de vista biológico, cada um de nós pode dizer.

Descobriu-se recentemente que algumas plantas se defendem à la Hidra de Lerna, monstro mitológico que lutou contra Hércules. A Hidra tinha três cabeças e hálito venenoso; a cada cabeça que o herói cortava, outras duas nasciam no lugar. Serviu de referência para que pesquisadores classificassem plantas como a Ipomopsis aggregata e a Arabidopsis thaliana. Elas ficam, nas palavras dos cientistas, “mais malvadas” a cada poda. Isto é: corta-se uma de suas folhas, outras mais crescem no lugar. Mas isso é comum para a maioria das plantas. A diferença é que além de crescer mais, estas tornam-se também mais venenosas. Corte-as e as deixe mais fortes: ofenda-as e elas se defendem melhor. Um trabalho em conjunto.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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