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Ar ·ti·fi·ci·al

Existe um poema anônimo escrito em inglês antigo entre os séculos 11 e 14 d.C. (os medievalistas discordam quanto à data), que fala do movimento da vida, chamando tudo de “terra”:

erthe toc of erthe erthe with woherthe other erthe to the erthe droherthe leyde erthe in erthene throhthanne hadde erthe of erthe erthe ynoh

Em tradução livre:

A terra tirou da terra terra com pesarA terra outra terra à terra levouA terra pôs a terra em sua terraEntão da terra a terra teve terra o bastante

Para entendê-lo, é preciso saber que “terra” é tanto o ser humano como a matéria da qual ele é feito e à qual retornará; é também o nome da agente maior, a “terra” que decide o que é feito; é ela, enfim, quem sente as consequências dessas ações. O movimento entre criação e decadência é constante e pode ser infinito — até que a terra se canse de tanta terra, isto é, até que ela se encha de nós.

Com toda essa terra, seria estranho pensar na artificialidade deste poema. “Artificial” é o contrário de natural. Vem de “ars”, em latim — “talento”, “saber” “capacidade” e, por consequência, “arte” —, combinado com “facere”, “fazer”. Na forma negativa, da mesma raiz criou-se “inércia”, “in-” + “ars”, ou seja, sem capacidade, sem arte.

A primeira lei de Newton, “lei da inércia”, diz que todo corpo deixado sozinho irá manter seu estado constante, seja de movimento ou repouso — é uma das leis mais básicas da natureza, segundo a física moderna.

O poema citado seria quase uma ode à inércia, ao movimento contínuo até o fim dos tempos. Isto é uma primeira leitura que se pode fazer do tema. Mas sua própria existência é uma contradição: sendo arte feita, é artificial. Existe arte o bastante em sua correspondência entre forma e conteúdo, na qual as repetições e rimas traduzem a repetitividade de nossos ciclos. Existe arte o bastante: isto é, este poema de inércia é, no final das contas, um desvio da inércia.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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