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Pro·ble·ma

Um problema é um obstáculo que se coloca à nossa frente: pode ser uma questão, uma dificuldade, uma pedra no meio do caminho. “Pro” em grego é algo que vai à frente; “ballein” é “lançar”, “jogar”, “colocar”. Do mesmo verbo vem a palavra grega “diaballo”, “lançar através”, como quem espalha a discórdia entre as pessoas, ou lança uma mentira. É o que faz o “diabolos” – em português, “diabo”. Drummond e Guimarães Rosa têm uma concordância secreta dentro da etimologia: um diz “no meio do caminho tinha uma pedra”, o outro responde, “o diabo na rua, no meio do redemunho”.

Houve, no começo do século 19, um problema que corria diante de obstáculos, ou melhor, uma problema, uma puro-sangue inglesa chamada Problem, que venceu corridas importantes e teve muitos filhos e netos que também foram campeões nas pistas. E uma “Problemas” que se propunha a “abrir caminhos”: era a revista mensal do Partido Comunista Brasileiro, que existiu entre 1947 e 1956, e que de início contou com direção de Carlos Marighella.

Quando os astronautas da Nasa têm um problema, eles ligam para Houston, pelo menos de acordo com a cultura popular – “Houston, we have a problem”. Já o rapper Jay Z, com 99 problemas, compõe um hit.

Os problemas do mundo são muitos, e muito diferentes – o comum é dizer que para cada um há uma solução. Os linguistas George Lakoff e Mark Johnson nos lembram que a palavra “solução” vem do campo da química, e que, com isso, poderíamos aproveitar uma metáfora interessante para lidar com nossos problemas: eles não desaparecem para sempre, mas podem ser dissolvidos. Basta que se encontre um catalisador adequado, que dissolva os que são mais urgentes sem causar a precipitação de outros maiores. Que os mesmos problemas voltem a aparecer, vez ou outra, não será um fracasso, mas uma ocorrência natural desse processo – dentro do qual não temos sempre controle, nem podemos ser totalmente culpabilizados.

Os problemas estão sempre presentes na dinâmica da nossa química íntima, o que não é necessariamente ruim. Como a pedra de Drummond, que nunca desaparece da memória de suas retinas, e o diabo de Guimarães Rosa: ele “existe e não existe”, ao mesmo tempo.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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