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In·te·li·gên·ci·a

Em 1753, um cachorro foi atração na Inglaterra por saber responder a perguntas sobre a geografia e história de Roma, a Bíblia, as “Metamorfoses” de Ovídio; também era bom em ler mentes humanas e as horas num relógio. Quase 200 anos antes, o cavalo escocês Marrocco ficou famoso por sorrir na presença da rainha da Inglaterra e mostrar os dentes para o rei da Espanha. Já o cavalo alemão Hans, no começo do século 20, conseguia fazer contas diante de plateias entusiasmadas. Apesar da fama, todos esses “animais sapientes”, como eram chamados, acabaram desmentidos – revelou-se que estavam, na verdade, lendo a linguagem corporal dos humanos ao redor e respondendo a partir dela. Porém, um fascínio parecido nos tomou quando, em 2010, confiamos num polvo chamado Paul para saber de antemão o resultado dos jogos na Copa do Mundo.

\u0009Polvos (e os outros cefalópodes) são uma espécie de caso à parte quando a questão é inteligência. Para entender melhor, precisamos voltar muito no tempo: cerca de 600 milhões de anos atrás. Foi quando os organismos unicelulares evoluíram para as primeiras criaturas pluricelulares, ainda no fundo do mar. São esses seres primordiais que estabelecem a relação entre nós e os cefalópodes; eles são o parente mais próximo que temos em comum. Foi a partir daí que a linha evolutiva que culminou nos cefalópodes separou-se daquela que chegou até os mamíferos e outros vertebrados. Isso significa que a natureza criou de duas maneiras independentes e diferentes os grandes sistemas nervosos e os cérebros complexos (o dos polvos é distribuído pelo corpo inteiro). Pensando assim, os polvos são o mais perto que temos, segundo um especialista, de conhecer vida extraterrestre inteligente.

\u0009Os “animais sapientes” do passado foram desmascarados porque não correspondiam a uma ideia humana que se tinha de “inteligência” – mas eles voltam a ser interessantes hoje porque é a própria ideia de inteligência que vem mudando. A palavra vem do latim “inter" + “ligare” ou “legare”, isto é, “entre-escolher”, discernir, reunir coisas ou ideias e, então, relacioná-las entre si, compreendê-las. Como quem lê as palavras de um livro. Ou como faz o pequeno pássaro tecelão: recolhe folhas, grama e palha e as relaciona, tece-as com seu bico e constrói um ninho onde morar.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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