Ir direto ao conteúdo

Mo·e·da

Leonid Utyosov nasceu no segundo dia da primavera de 1895, em Odessa, Ucrânia. Foi das figuras mais conhecidas da pouco conhecida era do jazz soviética, dos anos 1920 e 1930. É ele o compositor do klezmer cômico-afetuoso “Limonchiki”, que imita a fala dos gângsteres de Odessa. “Limonchiki”, “limõezinhos” era código para um milhão (um milhãozinho!) de rublos: “Ó, meus limõezinhos, crescendo na minha varandinha”. Pelo menos para eles, o dinheiro dava, sim, em árvores. Hoje, bem no centro da cidade, há um monumento para Utyosov (e “Limonchiki" segue sendo uma das canções mais tocadas no mundo do klezmer).

“Monumento” vem do latim “monumentum”, de “monere”, que é lembrar alguém de algo, trazer algo à mente, advertir, pensar. “Premonição" e “admoestar" são duas das palavras em português que remetem diretamente a essa raiz. “Monere" é o que fazia a deusa romana Juno Moneta, “aquela que avisa”. Mais do que um monumento, Juno Moneta tinha mesmo um templo no centro de Roma. Era lá que se fabricava o dinheiro no século 4 a.C., ou melhor dizendo, as “monetae”, “moedas”, que receberam esse nome por associação a ela. A moeda, assim como “money”, em inglês, carrega indiretamente esse sentido: lembrança, pensamento, aviso. Etimologicamente falando, poderia-se afirmar que cada moeda é um monumentinho.

Mas não é apenas à mente que as moedas remetem – elas também têm a ver com o coração. Na antiga cidade grega de Cirene, atual território da Líbia, existia uma planta chamada laserpício, ou láser, que era muito consumida como tempero e remédio, e sobretudo como principal método contraceptivo da época. Era tão utilizada que entrou em extinção; mas não antes de ter sua imagem cunhada em moedas. O desenho da vagem do laserpício é idêntico ao que hoje representa o coração, e há quem sustente que foi daí – desse encontro entre contracepção e comércio – que tiramos nosso símbolo para o amor. O poeta romano Catulo pede à sua amada Lésbia tantos beijos quanto há estrelas no céu, areia no deserto e láser em Cirene – às vezes seu amor funciona como as moedas, mais quantitativo que qualitativo.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!