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Di·plo·ma·ci·a

Em meados do século 17, a França espalhou pelo continente europeu a palavra “aristocratie”, e não levaria muito – cerca de cem anos – para que o país disseminasse outra, “diplomatie”, vindo na esteira da Revolução, antiaristocrática, de 1789.

“Diploma” vem do grego e significa simplesmente “dobrado em dois”, porque era assim que se fazia para transportar os documentos oficiais – eles não vinham em tubinhos naquela época. Desde muito antes da “diplomacia” que conhecemos hoje, existe a ciência diplomática, que analisa a autenticidade de documentos. Os diplomatas são, então, os encarregados oficiais da troca de documentos – e por consequência, das negociações – entre um Estado e outro.

Eram sobretudo os nobres que ocupavam postos diplomáticos. Por toda a Europa, na maior parte dos Estados monárquicos (Holanda e Inglaterra foram exceção à regra) a roupa oficial dos diplomatas era composta de casacos de seda, coletes ornamentados, calções e meias até o joelho; a língua para negociações era o francês e o pronome de tratamento necessário, “monsieur”, que designava o homem nobre. Não é surpresa que quando a Revolução Francesa eclodiu, os diplomatas estiveram entre os primeiros a serem rechaçados – ou até mesmo atacados. Em 1797, o novo regime francês dispensou todos os que tivessem origem nobre e determinou que os novos diplomatas fossem tratados por “citoyen” (cidadão). O embaixador francês Emmanuel Joseph Sieyès, servindo em Berlim, apareceu diante da corte da Prússia vestindo uma toga romana pintada de azul, branco e vermelho. Na antiguidade, uma das maneiras de se prender uma toga era em forma de diploide, isto é, dobrada duas vezes. Como um diploma.

Junto com a palavra “diplomacia”, foi disseminada a sombra de dualidade contida em sua raiz. O irlandês Edmund Burke, um dos primeiros a empregar em inglês a palavra “diplomacy” com o sentido atual, fala em “double diplomacy of the French”, o que hoje nós entenderíamos como a “política de duas caras dos franceses”. Não era só ele que pensava assim: pela proximidade com o mundo dos ofícios e documentos do governo, os diplomatas estavam inseridos no campo dos segredos da guerra e da paz, próximos demais dos reis, longe demais do interesse comum. Em 1870, a Enciclopédia Britânica falava da diplomacia como “algo que por muito tempo foi visto [...] como uma atividade moralmente um tanto suspeita”. O caminho foi longo para que nos dicionários atuais, “diplomático” pudesse ser sinônimo de “gentil” e “fino”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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