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Flo·res·ta

A palavra latina “foresta” surgiu na corte de Carlos Magno, na passagem do século 8 para o 9. Antes disso, os falantes de latim chamavam esses extensos aglomerados de árvores de “saltus” ou “nemus”. “Foresta”, segundo a etimologia mais aceita, é a combinação de “foris” com “silva”. “Foris” é o que está do lado de fora. Já “silva” era o nome dado a bosques cultivados dentro dos muros dos castelos — os antecessores nobres dos jardins de inverno.

A “foresta” é o que está “fora” em mais de um sentido. A palavra tem origem no contexto jurídico da corte: delimitava legalmente que um certo terreno serviria como reserva de caça para uso exclusivo do rei. A partir do momento em que uma dada região era “aforestada”, quem invadisse sua área estava sujeito a penas mais duras, porque até mesmo o código penal ali dentro era outro. Aquele território era fora do castelo, fora da lei comum, fora do alcance.

Ao contrário da ideia de floresta que temos hoje, na “foresta”, as árvores não eram o atrativo principal. Seu território era composto também por gramados abertos e o que mais houvesse de natureza na região – o importante mesmo era a diversidade. Isso porque os animais da “foresta” deveriam ter a vida mais confortável possível, com a sombra das árvores para descansar e os campos para correr. Se não fosse pelo fato de que, no fim das contas, eles estavam lá para virar comida, essas “forestas” seriam santuários de vida selvagem.

A palavra “foresta” continua igual ou quase igual nas línguas modernas ocidentais: “forêt”, “forest”, “forst”, “foresta”. Em português, ganhou o “l” provavelmente por associação com “flor” ou “flora”, o que acaba escondendo o parentesco que as florestas têm com os forasteiros e os foragidos.

Recentemente, porém, algo do sentido antigo da “foresta” começa a retornar, na esteira de uma palavra relativamente nova, “agrofloresta”, sistema de agricultura fundado na ideia de que é apenas por meio da diversidade que se pode simultaneamente preservar as espécies e cultivar alimentos.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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