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Pa·ga·men·to

“Pagamento”, forma substantivada do verbo “pagar", vem do latim “pacare”, que por sua vez, vem de “pax”, isto é, “paz”.

Etimologicamente, pagar uma pessoa é pacificá-la. Ou ficar em paz consigo mesmo. Já “pax” vem do indo-europeu “pak” ou “pag”, que significa fixar algo, como um bastão na terra (daí veio “pagão”, o homem que pertence à terra – diferente do homem que paga para que a terra pertença a ele).

Alguém que quisesse, por exemplo, pagar pela paz, incorreria numa redundância de conceito – pacificar a paz. Querer fixar a paz, por sua vez, seria uma redundância de origem – fixar duplamente.

Existe um ditado de uma antiga corrente mística árabe que diz que ninguém pode ser pago duas vezes pela mesma coisa. A ideia é que se você deseja algo e sente prazer no seu desejo, isto já é, por si, um pagamento. O desejo não precisa ser realizado. Mas essa mesma corrente também diz que quem necessita o bastante, e deseja pouco o bastante, pode provar um alimento delicioso. O alimento delicioso, nesse caso, costuma ser entendido como uma metáfora para uma conquista espiritual, uma conquista como a paz. Para tal, não se deve entender que o correto é não ter desejos, nem necessariamente ter pouco desejo, mas sim encontrar a medida certa entre desejo e necessidade. Cada um deve decidir por si, e a cada situação, qual proporção é essa. Não será fixa; pela lógica da frase, é provável que sua descoberta seja um pagamento em si mesmo.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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