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Tor·ci·da

Antes de existir a torcida de futebol, existiam as torcedoras de futebol, antes delas, os “fans”, abreviação em inglês para “fanatics”. Quando o esporte foi trazido da Inglaterra para o Brasil, houve quem quisesse (como Lima Barreto) transformar o "foot-ball" em bolapé, ou ludopédio. Não pegou. Ainda nos anos 1930, os jornalistas escreviam “goal”, “penalty”, e chamavam por “referee”, “match” e “captain” o que hoje é árbitro, partida e técnico. Mas o jogo havia demonstrado um princípio de aclimatação para o português, e isso por causa das mulheres: em 1906, o jornal O Estado de S. Paulo já falava em “torcedoras” – entre aspas, para demonstrar a excepcionalidade do termo.

"Torcedoras" eram as mulheres que iam ao estádio vestidas à europeia, sob um sol nada inglês. Por causa do calor, mas sobretudo pela preocupação com o jogo, tiravam as luvas e as torciam em gesto de angústia. Há quem refute essa história. Mas há quem diga que o responsável pela invenção do termo seja Coelho Neto, o cronista, “príncipe dos prosadores”, compositor do hino original do Fluminense, pai de dois jogadores do time (Preguinho e Mano) e primeiro brasileiro a invadir um campo. A hipótese de ter sido ele o criador é plausível, porque era preciso ter uma mente como a sua para nomear um coletivo de “fans” por meio de uma metonímia relacionada ao sofrimento. Patriotíssimo, sonhava com a glória do país, moldada numa idealização do mundo helênico. Terminou mais de uma de suas crônicas com “hurra!”, até mesmo um eventual “hurra! hurra! hurra!”. O “foot-ball”, para ele, cumpria a função que as tragédias cumpriam na Grécia: a sobrecarga dos afetos provocada pelo jogo levaria à purgação íntima e reorganização social. Assistir a uma partida é entender algo sobre o destino dos homens e o tamanho das nossas potências.

Houve alguma transformação fundamental quando o “foot-ball” inglês virou o futebol brasileiro: embora o vocabulário do jogo tenha encontrado traduções precisas do inglês para o português, certamente torcer não é correlativo de “cheer on”, que a princípio significa alegrar. E as cheerleaders americanas não poderiam estar mais distante das nossas torcedoras de luvas.

NOTA DE ESCLARECIMENTO: Foi incluída às 17h03 do dia 28 de agosto de 2017 uma menção com link para um outra possível origem do termo "torcida".

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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