Ir direto ao conteúdo

Ca·ri·o·ca

Consagrada na Hollywood dos anos 1930, “carioca” é o nome de uma dança de salão que fazia estrangeiros dizerem “não é à toa que nunca faz frio no Brasil”. Ou pelo menos é essa a fala de um personagem americano de “Voando para o Rio” (1933), primeiro filme em que Fred Astaire e Ginger Rogers aparecem dançando juntos, numa mistura de carioca com sapateado. A carioca é uma combinação de maxixe, rumba, samba e as eternas fantasias que o hemisfério norte faz do hemisfério sul: para dançá-la, o casal precisa estar com as mãos dadas e as testas unidas. “Caliente!” é o que diria quem acha que brasileiro fala espanhol.

“Carioca” é também o nome da canção feita para o filme, composta por dois americanos e um alemão (Vincent Youmans, Edward Eliscu e Gus Kahn). Em 2004, foi regravada como primeira faixa do disco “A Foreign Sound”, do Caetano Veloso: abre com percussão de Olodum, mas logo vem acompanhada de guitarra elétrica, e na sequência a voz de Caetano, um brasileiro cantando em inglês uma música sobre um Brasil imaginado. “Voando para o Rio” praticamente não tem atores brasileiros. A estrela do filme, Dolores del Rio, era mexicana –– não confundir “del Rio” com “do Rio”.

A etimologia mais difundida diz que “carioca” significa “casa do homem branco” em tupi (“kar'iwa”, “homem branco” + “oka”, “casa”). A palavra é, de início, um modo de falar do outro na língua que não é dele. Mas, com o passar do tempo, o outro, isto é, o homem branco, apropria-se da palavra, e logo a faz pertencer à sua língua. É difícil saber se esta é, de fato, a origem da palavra — há alguma discordância entre os linguistas. Mas a história cria um paralelo com uma cena do “Voando para o Rio”, em que Fred Astaire é pego no meio de um mal-entendido com policiais brasileiros. Sem falar uma palavra de português, começa a sapatear para os policiais. Tomados pela situação, os próprios policiais desistem de tentar se fazer entender pela própria língua e assumem a língua do outro: passam, eles também, a sapatear.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!