Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Púlpito de coletiva para presidente Brasil
É possível identificar um político pelo seu discurso?
 

Faz parte do protocolo democrático o presidente eleito iniciar seu mandato por meio de um discurso de posse ou relembrar os feitos de seu governo em um de despedida. Foi o caso do, agora, ex-presidente americano Barack Obama, que no último dia 10 fez um discurso histórico (íntegra) em Chicago, cidade onde se consolidou sua carreira política, despedindo-se do posto no Executivo –que passa para a guarda de Donald Trump– após dois mandatos consecutivos.

O que o presidente do país tem a dizer sobre o que foi ou o que virá sempre é objeto de atenção. E com razão. É nessas ocasiões, sobretudo nas cerimônias de posse, que o político versa sobre a essência da sua atuação política, discorre sobre o que acredita, sobre o que teme, e reafirma compromissos e intenções.

Sabendo disso, será possível identificar o presidente pelo seu discurso? O Nexo selecionou oito discursos dentre os mais de 40 presidentes brasileiros, de posse ou não, desde o início da República. Você é capaz de adivinhar de quem é qual?

Faça o teste:

“Ninguém ousa mais atentar contra a estabilidade institucional do país. E esse estado de espírito, hoje dominante, só foi alcançado graças a um método que exigiu esforço e contenção, a uma deliberada devoção à paz, a uma tolerância permanente e um contínuo esquecimento de agravos. Para que as instituições democráticas funcionassem; para que se dissolvessem nos espíritos hábitos incompatíveis com os nossos foros de nação civilizada, capaz de dominar os seus impulsos destruidores, apaguei da memória (...) os agravos recebidos; não respondi ao mal senão invariavelmente com o bem; não persegui a ninguém, não fechei minha porta a quem quer que fosse; não apliquei aos meus adversários as armas que eles próprios inventaram, admitiram e aplicaram contra mim.”

Dilma Rousseff (2015)

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Juscelino Kubitschek (1960)

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JK, em 1960. O mineiro, que governou o país de 1956 a 1961, fez a fala acima em um discurso no dia 31 de dezembro, faltando um mês para encerrar seu mandato. Em uma revisão dos anos que esteve à frente do poder, relembrou de forma não explícita as manifestações contrárias a seu governo. Entre as revoltas militares contra seu governo, a oposição ferrenha de Carlos Lacerda, político da UDN, até as acusações de intenções comunistas e corrupção. Aos primeiros, concedeu anistia; a Lacerda, conciliação.

“O poder civil está consolidado. Respira-se liberdade em todos os cantos do Brasil. Não posso ser mágico e do dia para a noite consertar o que não se consertou ao longo da história. Quando eu assumi, fui recebido com grandes reservas: não era nem o candidato do protesto, nem o ‘presidente da esperança’. Mas o Brasil sabe hoje que eu sou o ‘presidente da responsabilidade’. O meu jeito simples foi tomado como timidez e fraqueza. Minha prudência, como vacilação e ambiguidade. Proclamaram o caos e o fracasso. Graças a Deus, nada disso ocorreu. O governo pode ser firme, sem ser arrogante. Pode comandar, sem empáfia, nem ameaças. A sociedade democrática é uma sociedade de convivência. Eu não acredito na fórmula maquiavélica de que o poder deve amendrontar, para ser respeitado.”

José Sarney (1985)

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Itamar Franco (1992)

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José Sarney, em 1985. O político maranhense assumiu o país em uma situação complicada: Tancredo Neves, que vencera a eleição indireta para assumir o governo após o fim da ditadura militar, iniciada em 1964, morre antes de tomar posse. Sarney, seu vice, assume em seu lugar enquanto a população nas ruas lamentava a perda do “presidente da esperança”, símbolo da volta da democracia e das liberdades civis. Na fala acima, retirada de um discurso transmitido no rádio e na TV em novembro de 1985, Sarney faz uma espécie de avaliação do seu quase um ano de governo afirmando ter agido com “responsabilidade” e firmeza, apesar das previsões de “caos” e “fracasso”. O ex-presidente manteve-se no cargo até o fim do mandato, em 1990.

“Num país que conta com tantas terras férteis e com tanta gente que quer trabalhar, não deveria haver razão alguma para se falar em fome. No entanto, milhões de brasileiros, no campo e na cidade, nas zonas rurais mais desamparadas e nas periferias urbanas, estão, neste momento, sem ter o que comer. Sobrevivem milagrosamente abaixo da linha da pobreza, quando não morrem de miséria, mendigando um pedaço de pão. Essa é uma história antiga. O Brasil conheceu a riqueza dos engenhos e das plantações de cana-de-açúcar nos primeiros tempos coloniais, mas não venceu a fome; proclamou a independência nacional e aboliu a escravidão, mas não venceu a fome; conheceu a riqueza das jazidas de ouro, em Minas Gerais, e da produção de café, no Vale do Paraíba (...) Isso não pode continuar assim. Enquanto houver um irmão brasileiro ou uma irmã brasileira passando fome, teremos motivo de sobra para nos cobrirmos de vergonha.”

Luis Inácio ‘Lula’ da Silva (2002)

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Washington Luís (1926)

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Lula, em 2002. O petista foi eleito presidente após três tentativas frustradas em 1989, 1994 e 1998. Em seu discurso de posse, anunciou a sua principal bandeira –o combate à fome e à miséria–, mas com ponderação, sinalizando uma “guinada ao centro”, enquanto pedia por um “pacto social” entre os diferentes setores da sociedade. Assim, além de reiterar sua intenção de “acabar com a fome” no país, disse que seu governo e a esquerda teriam que “manter sob controle as nossas muitas e legítimas ansiedades sociais”, além de uma “reforma agrária pacífica, organizada e planejada”. Lula foi reeleito em 2006 e ficou no poder até o fim de seu mandato, em 2010.

“(...) Que cada um faça a sua parte e carregue a sua pedra nesta tarefa de soerguimento nacional. Cada operário e cada homem de empresa, estes principalmente, pois a eles lembrarei esta sentença de Ruy Barbosa: ‘É nas classes mais cultas e abastadas que devem ter seu ponto de partida as agitações regeneradoras. Demos ao povo o exemplo e ele nos seguirá’. Cumpram, pois, os brasileiros mais felizes ou mais dotados o seu dever para com a Nação e verão que o Brasil os imitará para a perenidade, glória e concórdia desta Pátria privilegiada (...) Direi que a minha humildade de toda uma vida cresce neste instante: nunca um só homem precisou tanto da compreensão, do apoio e da ajuda de todos os seus concidadãos. Venham a mim os brasileiros, e eu irei com eles para, com o auxílio de Deus, e com serena confiança, buscarmos melhores dias nos horizontes do futuro.”

Castelo Branco (1964)

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Fernando Collor de Mello (1990)

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Castelo Branco, em 1964. Humberto Castelo Branco foi o primeiro da lista de militares a governar o país durante o regime ditatorial que vigorou de 1964 a 1985. A fala acima é retirada de seu discurso de posse, feita formalmente em 15 de abril de 1964. Nele, convocou os brasileiros “mais felizes ou mais dotados” a cumprir seu “dever para com a Nação”, bem como pediu “compreensão”, “apoio” e “ajuda” de todos em um momento em que “nunca um só homem precisou tanto”. O marechal ficou no poder até 1967, dando lugar a Costa e Silva.

“Tendo assumido o governo do Estado nos termos da Constituição (...) cumpre-me expor ao país o pensamento geral que me há de inspirar na administração pública. A administração da fazenda pública com a mais severa economia e a maior fiscalização no emprego da renda do Estado será uma das minhas preocupações. Povos novos e onerados de dívidas nunca foram povos felizes (...). Na grandiosa oficina em que se trabalha no progresso da pátria não há vencidos nem vencedores, grandes ou pequenos. São todos operários de uma obra comum. A essa obra dedicarei todo o meu esforço, para esse trabalho peço e espero o concurso de todos os brasileiros.”

Michel Temer (2016)

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Floriano Peixoto (1891)

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Floriano Peixoto, em 1891. Apelidado “Marechal de Ferro”, por sua postura dura na repressão às revoltas emergidas em seu governo, assumiu o poder no Brasil após renúncia do titular Marechal Deodoro da Fonseca, tornando-se o segundo presidente da história da República, após a destituição da monarquia. Floriano presidiu o país de 1891 a 1894. O anúncio de intenções sobre a economia do país em seu discurso de posse se justifica pela situação de crise que seu governo enfrentava como consequência do “encilhamento” –como ficou conhecida a política de crédito e emissão de moeda que visava incentivar a indústria, mas que afundou o país em inflação.

“Chega de construir escolas faraônicas e depois enchê-las de professores mal pagos e mal preparados, junto com estudantes desmotivados e sem condições materiais e psicológicas para terem um bom aproveitamento. Para exercermos na plenitude nosso mandato de acabar com a miséria, é preciso também acabar com a miséria espiritual. Que os meios modernos de comunicação nos ajudem nessa tarefa. Ao lado da informação e do divertimento, vamos engajar nossas TVs numa verdadeira cruzada nacional pelo resgate da cidadania através do ensino, começando por uma intensa ação de alfabetização e formação cultural.”

Fernando Henrique Cardoso (1994)

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Café Filho (1954)

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FHC, em 1994. A aposta na TV como veículo disseminador de educação fez parte do discurso de posse de Fernando Henrique Cardoso, em seu primeiro mandato. Em 1995, o Ministério da Educação passou a contar com um canal chamado “TV Escola”, cuja programação era exclusivamente de conteúdos educacionais, voltados para alunos ou professores. FHC foi reeleito em 1998 e seguiu à frente do governo até 2002.

“Quando a influência e o controle do Estado sobre a economia tendem a crescer, a competição política tem por objetivo o domínio das forças econômicas. E a perspectiva da luta civil (...) é substituída pela perspectiva incomparavelmente mais sombria da luta de classes. Em tais circunstâncias, a capacidade de resistência do regime desaparece e a disputa pacífica das urnas é transportada para o campo da turbulência agressiva e dos choques armados. É dessa situação perigosa que nos vamos aproximando. (...) Os preparativos eleitorais foram substituídos, em alguns Estados, pelos preparativos militares, agravando os prejuízos que já vinha sofrendo a Nação, em conseqüência da incerteza e instabilidade criadas pela agitação facciosa.”

João Goulart (1964)

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Getúlio Vargas (1937)

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Getúlio Vargas, em 1937. Em um discurso proferido em 1937, Vargas explica sua decisão autoritária em promulgar uma nova Constituição, derrubando a de 1934, criando um regime de exceção no país e prolongando seu mandato durante o chamado Estado Novo. Segundo ele, para “reajustar o organismo político às necessidades econômicas”, “não se oferecia outra alternativa” a não ser  instaurar um “regime forte, de paz, de justiça e de trabalho”. “Prestigiado pela confiança das Forças Armadas e correspondendo aos generalizados apelos dos meus concidadãos, só acedi em sacrificar o justo repouso a que tinha direito, ocupando a posição em que me encontro, com o firme propósito de continuar servindo à Nação.” O golpe autoritário permitiu a Vargas continuar no governo até 1945. O político gaúcho ainda voltaria a ocupar o assento presidencial de 1951 a agosto de 1955 –quando se suicidou.

“(...) Que Deus onipotente me ilumine e me resguarde na jornada. Como o afirmei em numerosas paragens, do território da pátria, este será um governo rude e áspero; tais objetivos não têm sentido de ameaça, antes exprimem a franqueza de quem não mente aos seus concidadãos, porque não foge ao seu dever nem abdica das suas convicções. Se não me faltar o arrimo da inspiração divina, se não me faltar o apoio das multidões, se não me faltar o apoio do Legislativo e do Judiciário, sei de mim que resgatarei a palavra de fé empenhada nas praças.”

Deodoro da Fonseca (1889)

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Jânio Quadros (1961)

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Jânio Quadros em 1961. Com a “franqueza de quem não mente”, Jânio não durou muito em Brasília –após se tornar o primeiro presidente a tomar posse na nova capital. Mais precisamente, foram sete meses de governo. Em seu discurso –recheado de exemplos do seu vocabulário peculiar–, Quadros ressaltou a “terrível situação financeira do Brasil”, além da “crise moral, administrativa e político-social em que mergulhamos”. Contra essas, reafirmou seu compromisso contra a corrupção aliado ao instrumento que lhe deu fama: “A vassoura que o povo me confiou nas assembléias, trago-a comigo, para os serviços empreitados.” Em sua carta de renúncia, Quadros diz ter sido “vencido pela reação” e sofrido o enfrentamento de “forças terríveis”. Em seu lugar, assumiu o vice João Goulart, o qual seria deposto três anos pelos militares.

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