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A renda de mulheres e homens conforme a escolaridade

Clique no gráfico para visualizar a relação entre os salários de cada gênero conforme as faixas de escolaridade

Você é capaz de adivinhar as diferenças salariais entre homens e mulheres conforme a escolaridade? Experimente.

Clique na área do gráfico para começar. Vai aparecer uma linha vermelha com quatro bolas vermelhas, referentes às quatro faixas de escolaridade. Movimente as bolas vermelhas para cima ou para baixo com o cursor (ou o dedo se você estiver no celular). Não é necessário segurar e arrastar. Depois de posicionar as bolas vermelhas, clique para fixar. Aperte o PRONTO para descobrir a curva verdadeira.

Que as mulheres ganham em geral salários mais baixos do que os dos homens não é novidade. Essa relação muda conforme o nível de escolaridade. O que surpreende no gráfico acima, no entanto, é descobrir que, quanto mais as mulheres estudam, mais seus salários se distanciam dos dos homens. As informações são da Pesquisa Nacional de Domicílios (Pnad) do segundo trimestre deste ano.

Entre profissionais que concluíram o ensino superior, o rendimento médio das mulheres é apenas 58,4% do rendimento dos homens. Em comparação, na faixa mais baixa de escolaridade, o rendimento das mulheres é 65,9% do rendimento dos homens.

O que explica a discrepância?

Estudiosos discutem alguns fatores, como o tempo que as mulheres dedicam ao trabalho, o tipo de trabalho ocupado pelas mulheres, os objetivos profissionais de homens e mulheres e, claro, a possível discriminação no mercado de trabalho.

Em geral, a jornada de trabalho das mulheres é mais curta que a dos homens. Segundo estudo do IBGE com dados das Pesquisas Mensais de Empregos de 2011, as mulheres trabalharam em média 4,2 horas menos do que os homens por semana. Esse número de horas equivale a 10% do tempo de trabalho semanal de um homem. A diferença salarial entre os dois gêneros, entretanto, chega a 30%. Ou seja, a média menor de horas trabalhadas não é suficiente para explicar a distância entre salários.

Entender melhor a qualificação profissional de homens e mulheres seria o segundo passo. Mas aqui o exercício também se prova complicado. Um levantamento do IBGE (Estatísticas de Gênero) feito em 2014 a partir dos dados do último censo, demonstrou que há mais mulheres com maior tempo de estudo no mercado de trabalho do que homens: para as pessoas acima de 25 anos, a maioria das mulheres (50,2%) tem 11 anos ou mais de estudos, enquanto os homens, 38,6% têm esse mesmo nível de escolaridade.

Talvez as diferentes opções de carreiras de homens e mulheres serviriam, então, para justificar a discrepância. Dados censitários do Brasil demonstram que as áreas gerais de formação nas quais as mulheres estavam em maior proporção em 2010, Educação (83,0% dos formados eram mulheres) e Humanidades e Artes (mulheres eram 74,2% das pessoas formadas), eram justamente as áreas que registravam os menores rendimentos médios mensais (R$ 1.810 e R$ 2.224 respectivamente).

Contudo, embora essas duas áreas tivessem a melhor razão entre o rendimento feminino e o masculino, a desigualdade de salários se mantinha. As mulheres com formação na área de Humanidades e Artes ganhavam 78,5% do que ganhavam os homens formados na mesma área. E dos formados na área de Educação, elas ganhavam apenas 72,1% do que eles ganhavam. O rendimento das mulheres não se igualava ao dos homens em nenhuma das áreas gerais de formação.

Um estudo feito por professores da USP e da FGV aponta que as mulheres ocupam apenas 7,9% dos cargos de diretoria e 7,7% dos postos em conselhos de administração. Ainda assim, as mulheres correspondem a apenas 3,9% dos presidentes de conselhos e 3,4% dos CEOs no país. A ocupação dos postos de comando pode justificar parte da desigualdade de rendimentos. No entanto, talvez não seja suficiente para explicar uma diferença salarial tão grande, uma vez que a maioria dos postos de trabalho não estão em cargos de direção.

Em pesquisa realizada pelo DIEESE em 2014, com dados de 2013, se observou discrepância entre os rendimentos masculino e feminino. Mesmo quando ocupando o mesmo cargo, homens tendem a receber 1,25 vezes mais do que as mulheres, comparando o rendimento por hora. O estudo foi realizado em seis capitais (Recife, Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre) e aponta que mesmo em nichos profissionais com predominância feminina, as mulheres tendem a ganhar menos que os homens. Ainda, mulheres que trabalham em cargos tipicamente masculinos tendem a ganhar mais que aquelas que trabalham em ocupações tipicamente femininas.

um estudo feito nos Estados Unidos analisando historicamente os salários dos profissionais de enfermagem entre 1988 e 2013 identificou que ainda que atuando na mesma área, em profissão onde tradicionalmente prevalecem mulheres, na mesma posição hierárquica e no mesmo local de trabalho, os homens ganhavam, em média, mais de 5 mil dólares por ano a mais do que as mulheres.

Licenças maternidade e paternidade

Afastamentos por conta de licença-maternidade seriam então outra possível explicação para a diferença salarial entre homens e mulheres. Um levantamento recente feito pela Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul argumenta que 9,8% da desigualdade seriam explicados pela maior probabilidade de “interrupção na carreira” das mulheres, em especial devido à licença-maternidade.

A legislação brasileira prevê a licença-maternidade de 4 ou 6 meses e o benefício é pago pelo governo federal (mais propriamente pelo INSS). Na volta da licença-maternidade, às mulheres está garantida a estabilidade de mais um mês no trabalho. Os homens, por sua vez, têm direito ao benefício de cinco dias de licença-paternidade, que é pago pelo empregador.

Dados sobre diferença de salários entre homens e mulheres disponibilizados pelo Fórum Econômico Mundial e dados sobre licenças maternidade e paternidade compilados pelo Banco Mundial sugerem que países com menor diferença de dias pagos de licença-maternidade e licença-paternidade têm maior igualdade salarial entre homens e mulheres. É o caso da Islândia, onde não há diferença entre as licenças e a igualdade salarial é maior. Na outra ponta, estão países como Israel e Itália, onde mães têm um período de licença muito maior do que os pais e a diferença entre salários é de cerca de 50%.

Para essa análise foram usados os dados que estavam disponíveis dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Brasil.

Essa hipótese, no entanto, explica apenas uma parcela do problema, uma vez que mesmo em países em que o tempo de afastamento do trabalho pode ser usufruído igualmente entre homens e mulheres, o rendimento médio das mulheres ainda é 85% do valor do rendimento dos homens.

Homens e mulheres: diferenças culturais que afetam as carreiras?

Os muitos estudos existentes só conseguem explicar parcialmente a diferença nos rendimentos. Talvez porque a explicação não esteja mesmo nos critérios objetivos em relação ao perfil profissional e tenha mais a ver com questões culturais.

Estudos sobre outros temas publicados nos Estados Unidos dão sugestões nesse sentido: em um deles, feito por pesquisadores da Universidade de Yale, os mesmos currículos de candidatura a universidades são melhor avaliados quando atribuídos a um homem do que quando são atribuídos a uma mulher. Outro estudo, publicado na Revista de Psicologia Aplicada dos Estados Unidos, demonstra que as mesmas cartas de recomendação, quando assinadas por homens têm mais impacto do que quando assinadas por mulheres. Outras pesquisas sobre desigualdade salarial também relacionam as responsabilidades assumidas por mulheres nos cuidados da casa e dos filhos como importante fator da desigualdade de posicionamento de homens e mulheres no mercado de trabalho.

Conclusões de diferentes estudos sugerem a necessidade de promoção de políticas públicas em diferentes âmbitos com o objetivo de reduzir a desigualdade salarial. Ao mesmo tempo, aparecem também sugestões para estimular nas mulheres o desenvolvimento de habilidades de negociação e de auto-promoção, para aumentar suas chances no mercado de trabalho. E isso tudo deve ser aliado às mudanças culturais que parecem ser absolutamente necessárias para que homens e mulheres possam realmente ter salários e oportunidades iguais.

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