Entidades denunciam Brasil na ONU por caso Bruno e Dom

Grupos reclamam de omissão de autoridades para investigar assassinatos de indigenista e jornalista. Iniciativa busca aumentar pressão internacional sobre governo

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A ONU (Organização das Nações Unidas) recebeu nesta quarta-feira (22) uma denúncia de entidades de direitos humanos e ligadas ao movimento indígena contra o governo de Jair Bolsonaro, por sua atuação nas investigações dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. A informação é do colunista do UOL Jamil Chade. O grupo afirma que as autoridades demoraram para responder quando foram informadas do desaparecimento da dupla e que indígenas do Vale do Javari foram os primeiros a articular uma missão de buscas das vítimas.

A denúncia tem o objetivo de aumentar a pressão internacional para que as autoridades brasileiras continuem a investigação do crime, principalmente após a Polícia Federal ter concluído, na sexta-feira (17), que o duplo assassinato não teve mandantes. Segundo o UOL, diplomatas brasileiros temem que o caso no Amazonas amplie a pressão estrangeira contra o governo Bolsonaro. A ONU já havia cobrado na quinta (16) respostas do Palácio do Planalto. Instamos as autoridades brasileiras a ampliar seus esforços para proteger os defensores dos direitos humanos e os povos indígenas de todas as formas de violência e discriminação, disse, em nota enviada naquele dia à BBC, a porta-voz da organização, Ravina Shamdasani.

A Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) contesta a conclusão da Polícia Federal de que o assassinato de Bruno e Dom não teve mandante. Em audiência pública nesta quarta (22) no Senado, a entidade entregou documentos que contêm relatos de ameaças e de exploração ilegal no Vale do Javari. O procurador jurídico da Univaja, Eliesio Marubo, afirmou que a PF não levou em consideração essas informações na investigação, embora elas tenham sido repassadas às autoridades. Para ele, mais mortes ocorrerão caso essas informações continuem sendo desprezadas e os agentes não tomem providências para identificar e punir os mandantes do crime.

Servidores da Funai (Fundação Nacional do Índio) anunciaram uma greve em todas as unidades dos estados e no Distrito Federal a partir de quinta-feira (23). Eles cobram melhores condições de segurança para atuar nas áreas de risco na Amazônia e exigem a saída imediata do presidente do órgão, Marcelo Augusto Xavier da Silva, acusado de promover uma gestão anti-indígena e anti-indigenista na instituição. Documentos aos quais o jornal Folha de S.Paulo teve acesso revelam que o delegado, que preside a Funai desde julho de 2019, coleciona à frente do órgão pedidos de investigação contra indígenas e defensores da pauta ambiental. Xavier é conhecido por perseguir funcionários concursados e lideranças indígenas, aplicar uma militarização sem precedentes na instituição e boicotar a demarcação de terras indígenas.

A PF revelou que abriu uma nova frente de investigação do assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips. Os agentes apuram agora o envolvimento do pescador ilegal Amarildo da Costa Oliveira suspeito preso pelo crime junto com o irmão, Oseney, e com Jefferson da Silva Lima com uma quadrilha que atua em territórios indígenas no Vale do Javari. Segundo a nova linha de investigação, os compradores de peixes seriam traficantes de drogas e essas transações seriam uma estratégia das quadrilhas para encobrir esquemas de lavagem de dinheiro. O indigenista assassinado era alvo constante de ameaças por atuar contra a pesca ilegal na região.

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