CIA pediu para Bolsonaro não questionar eleições, diz Reuters

Pedido teria sido feito em julho de 2021, em meio a escalada de investidas contra urna eletrônica, em encontro de delegação da agência de inteligência americana com integrantes do alto escalão do governo brasileiro

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    A CIA, agência de inteligência dos EUA, pediu que o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) parasse de questionar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro em uma reunião em 2021, segundo fontes ouvidas pela agência de notícias Reuters. As informações foram publicadas nesta quinta-feira (5).

    O pedido, segundo a Reuters, foi feito em uma reunião em julho de 2021 entre membros de uma comitiva da CIA e integrantes do governo brasileiro. Duas fontes anônimas ouvidas pela agência de notícias afirmaram que o comentário foi feito diretamente por William Burns, chefe da CIA, nomeado pelo presidente americano Joe Biden. Outra fonte anônima não tinha certeza se a fala veio de Burns.

    Na viagem ao Brasil em julho de 2021, o diretor da CIA se encontrou com Bolsonaro e ministros. Num documento encaminhado pelo GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência da República à Câmara dos Deputados, obtido pelo jornal o Globo, o governo disse que as reuniões trataram da “promoção da democracia, da segurança e da estabilidade no Hemisfério”. Em nota, na quinta (5), o GSI afirmou que “não recebe recados de nenhum país, nem os transmite” e que o conteúdo da reunião é sigiloso.

    Na mesma viagem, Burns também participou de um jantar com Luiz Eduardo Ramos – então ministro da Casa Civil – e Augusto Heleno, ministro do GSI, na casa de Todd Chapman, então embaixador americano no Brasil. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Burns deixou claro nesse jantar que as eleições deveriam ser assunto “intocável” para os membros do governo de Bolsonaro. Heleno e Ramos – ambos generais da reserva – teriam minimizado as falas do presidente sobre fraude eleitoral, feitas sem provas.

    As reuniões com a comitiva da CIA aconteceram num período em que Bolsonaro intensificava os ataques às eleições, defendendo o voto impresso e tentando minar, sem provas, a confiança na urna eletrônica. O projeto do voto impresso foi derrotado no Congresso em 5 de agosto, dia em que o presidente colocou tanques do Exército para desfilar em Brasília. Um mês depois, nos atos de 7 de setembro de 2021, Bolsonaro fez seu mais duro ataque às instituições, com investidas contra o Supremo e a Justiça Eleitoral. Em 2022, o presidente continua a questionar a lisura da urna eletrônica, com amparo das Forças Armadas.

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