Cabo Anselmo, ex-agente duplo da ditadura, morre aos 80 anos

Informante do regime militar, ele fez treinamento de guerrilha em Cuba e se infiltrou em grupos de opositores, levando militantes à tortura e à morte

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    O agente duplo mais conhecido da ditadura militar (1964-1985), José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, morreu em Jundiaí (SP) aos 80 anos. A morte ocorreu na terça-feira (15) em decorrência de um mal súbito, disse o ex-advogado dele ao G1.

    Durante a ditadura militar, Cabo Anselmo trabalhou para o regime como agente infiltrado em grupos revolucionários. Ele ganhou notoriedade pela primeira vez em 1964, quando liderou uma revolta de marinheiros que resultou na sua expulsão da Marinha. Esse episódio, inclusive, foi um dos pretextos usados pelos militares para tomarem o poder no golpe de Estado orquestrado naquele mesmo ano.

    A partir daquele momento, Cabo Anselmo teria atuado como um opositor da ditadura. Recebeu treinamento de guerrilha em Cuba e passou a integrar a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Após ser preso pelo regime em 1971, inverteu seu papel e passou a trabalhar para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) como agente duplo, se infiltrando em grupos de opositores do regime e passando informações valiosas aos militares. Alguns ex-presos políticos desconfiam que ele tenha se juntado à repressão antes mesmo de sua prisão, mas o Cabo Anselmo afirmava que tinha atuado como delator da esquerda para não ser morto.

    Em 1973, Anselmo atraiu um grupo de guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária, que militava contra a ditadura, para uma armadilha em que seis deles foram mortos. Entre as vítimas estava a paraguaia Soledad Barret, que era esposa de Anselmo e estava grávida. Em 2015, em sua autobiografia, intitulada “Minha Verdade”, o ex-agente duplo se defendeu, dizendo que os militares haviam prometido que sua companheira seria poupada.

    Em 2004, ele realizou um pedido de anistia, solicitando sua reintegração à Marinha e uma indenização. Mas a Comissão de Anistia, ligada ao Ministério da Justiça, negou.

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