Militar que falou em atirar em indígenas é exonerado da Funai

Coordenador regional do órgão encorajou líderes da etnia marubo a ‘meter fogo’ em povos isolados do Amazonas. Áudio foi divulgado em julho

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    Henry Charlles Lima da Silva, tenente da reserva do Exército, foi exonerado pelo Ministério da Justiça de seu cargo como coordenador regional da Funai (Fundação Nacional do Índio) no Vale do Javari. A decisão, publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira (9), acontece meses após a divulgação de um áudio em que o militar encorajou líderes da etnia marubo a atirar contra indígenas isolados no Amazonas.

    A gravação foi obtida e revelada em julho pelo jornal Folha de S.Paulo. “Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental] e pressionar: ‘Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados’”, afirmou Charlles durante uma reunião na aldeia Paulinho, em 23 de junho. Frentes de Proteção Etnoambiental são unidades da Funai especializadas em atender os povos isolados nos estados.

    Segundo relatos dos marubos à Folha, dias antes dessa reunião, indígenas isolados teriam raptado uma mulher de 37 anos da aldeia. Ela foi encontrada após quatro horas de busca, sozinha na mata, com as mãos amarradas. No áudio, o coordenador disse que os marubos “têm todo o direito de se defender”. “Não estou aqui pra desarmar ninguém (...) Eu passei muito tempo da minha vida evitando a guerra, mas se a guerra vier, nós também não vamos correr”, afirmou.

    O militar fez também declarações falsas, dizendo que os indígenas isolados “já pedem cesta básica, já falam português, já têm contato direto com a Frente”. Na verdade, não há nenhum povo isolado que fale português e eles tampouco recebem cestas básicas do governo.

    Ainda em julho, a Funai afirmou em nota que o áudio de Charlles não representa a posição oficial da instituição”. A Funai acompanha atentamente os relatos dos Marubo do rio Ituí em relação à presença de índios isolados no entorno de suas aldeias, bem como tem envidado todos os esforços para evitar qualquer conflito interétnico na região”, disse o texto. A fundação ainda não esclareceu se a exoneração do coordenador tem relação com a gravação.

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