Redes sociais derrubam live em que Bolsonaro associa aids a vacina

Presidente Jair Bolsonaro afirmou falsamente que imunizante contra covid pode levar ao desenvolvimento da síndrome de imunodeficiência adquirida

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    O Facebook e o Instagram removeram de suas plataformas a live de Jair Bolsonaro na quinta-feira (21) na qual o presidente associou a vacina contra a covid-19 à aids (síndrome de imunodeficiência adquirida).

    As transmissões em vídeo semanais do presidente são cenário de difusão constante de notícias falsas a respeito de temas como as urnas eletrônicas, o tratamento precoce contra a coronavírus e o isolamento social adotado por gestores locais ao longo da pandemia. Esta live, no entanto, foi a primeira a ser derrubada pelas redes sociais detidas pelo Facebook.

    Antes, o único vídeo difundido por Bolsonaro a ser removido dessas plataformas havia sido uma conversa gravada com simpatizantes na qual o presidente defendia o uso da cloroquina para tratar a covid, em março de 2020. À época, as empresas começavam a adotar medidas para coibir a difusão de desinformação na pandemia. Por motivos similares, o YouTube, do Google, já retirou do ar pelo menos 14 lives presidenciais após uma revisão da política da empresa em julho de 2021.

    Na live derrubada por Facebook e Instagram, Bolsonaro leu uma notícia afirmando que vacinados contra a covid-19 estariam desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida, doença popularmente conhecida como aids, “mais rápido do que o previsto”. Segundo a notícia falsa, que foi veiculada em sites como Stylo Urbano e Coletividade Evolutiva, os dados teriam sido retirados de relatórios produzidos pelo Departamento de Saúde Pública do Reino Unido. Os relatórios originais não fazem nenhuma menção ao vírus causador da aids.

    A fala de Bolsonaro gerou forte reação de entidades médicas e especialistas da área da saúde. A Sociedade Brasileira de Infectologia publicou uma nota repudiando toda e qualquer notícia falsa que circule e faça menção a esta associação inexistente, enquanto pesquisadores afirmaram nas redes sociais que o presidente coloca em xeque a vacinação no país.

    Em nota, a Sociedade Brasileira de Infectologia afirmou que não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a covid-19 e o desenvolvimento de síndrome da imunodeficiência adquirida. O mesmo foi reforçado por outros pesquisadores reconhecidos, como a epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin (EUA), Denise Garrett. A médica afirmou que a associação entre aids e a vacina é absurda e anticientífica.

    Jamal Suleiman, infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, refutou a hipótese de Bolsonaro, justificando que a vacina não utiliza nenhum fragmento do vírus causador da aids, o HIV, e que a forma de transmissão das duas doenças também é complemente diferente. Enquanto a covid é transmitida pelo ar, o desenvolvimento da síndrome de imunodeficiência adquirida se dá pelo compartilhamento de seringas e relações sexuais.

    Especialistas alertam que a fala do presidente Jair Bolsonaro pode contribuir para a hesitação vacinal, desincentivando que a população se vacine contra a covid-19. Bolsonaro, segundo Denise Garrett, endossa uma narrativa antivacina. Além disso, especialistas em infectologia apontaram que a fala do presidente reforça o estigma em torno de pessoas que vivem com HIV no país. “O que causa aids é a desigualdade, o preconceito e o estigma, publicou Vinícius Borges, infectologista especializado em saúde de pessoas LGBTI+.

    Os números de casos e mortes na pandemia apresentam queda consistente à medida que avança a vacinação no país. Até agora, 51% da população está com o esquema vacinal completo no Brasil.

    Em resposta à declaração de Bolsonaro, a bancada do PSOL na Câmara e o deputado Túlio Gadelha (PDT-PE) protocolaram uma notícia-crime no Supremo Tribunal Federal, argumentando que o presidente violou o Código Penal por infringir medida sanitária preventiva e causar perigo para a vida ou saúde de outrem, além do princípio da moralidade previsto na Constituição Federal e a Lei de Improbidade Administrativa, o que representaria crime de responsabilidade. Agora cabe ao Supremo decidir se abre uma investigação sobre o caso.

    Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Covid, escreveu no Twitter que o comentário do presidente deve ser incluído no relatório final da comissão. Segundo Randolfe, os senadores também vão recomendar às plataformas digitais o “banimento e/ou suspensão” de Bolsonaro e encaminharão um ofício ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes, pedindo que o caso seja investigado no âmbito do inquérito das fake news.

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    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Jair Bolsonaro tinha associado o vírus HIV à vacina contra a covid-19. Na verdade, em sua live semanal, o presidente fez uma associação sem base científica da aids com o imunizante. A informação foi corrigida às 19h45 de 25 de outubro de 2021.

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