Na contramão de discurso oficial, Mourão fala em racionamento

Em evento, vice-presidente ventilou possibilidade e disse prever efeitos prolongados para crise hidrelétrica. Ministros e Bolsonaro têm evitado ao máximo uso do termo, que se consolidou na crise do apagão de 2001

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    O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta quarta-feira (1°) que o Brasil poderá ter que enfrentar racionamento de energia nos próximos meses, e que a crise da energia pode se manter pelos próximos anos.

    "O governo tomou as medidas necessárias, criou uma comissão para acompanhar e tomar as decisões a tempo e a hora no sentido de impedir que haja um apagão. Agora, pode ser que tenha que ocorrer algum racionamento, o próprio ministro falou isso", afirmou o vice-presidente em evento, lembrando que o Brasil tem uma matriz energética concentrada em hidrelétricas. "É algo que vamos enfrentar nos próximos anos enquanto não houver uma recuperação plena dos nossos reservatórios."

    A fala de Mourão vai na contramão do restante do governo, que afasta a possibilidade de racionamento e tenta evitar ao máximo a palavra em meio à crise hídrica do país, a maior em 91 anos. O termo, que se consolidou durante a crise do apagão de 2001, é temido pelo potencial impacto na popularidade do governo Bolsonaro, que já está em baixa. Na noite de terça-feira (31), em pronunciamento oficial, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, repetiu não ver risco de racionamento mas disse que a "condição hidro energética se agravou" e pediu que a população tome medidas para reduzir o desperdício. Como incentivo, consumidores residenciais e pequenos negócios poderão receber um desconto na conta de luz se reduzirem o consumo.

    Além de medidas de incentivo à redução do uso de energia, o governo federal tem aumentado a conta de luz. Na terça (31), anunciou uma nova bandeira tarifária, chamada de "escassez hídrica", que levará a um reajuste de 6,78% na tarifa média de energia ao consumidor. A taxa extra, cobrada a cada 100 kWh quando o sistema está em bandeira vermelha, será de R$ 14,20. O anúncio contrariou um pedido feito pelo presidente Jair Bolsonaro a seus ministros. Segundo o jornal O Globo, ele queria evitar notícias impopulares até 7 de Setembro, quando apoiadores do presidente devem se reunir em atos pró-governo. A expectativa era que o aumento fosse segurado até a data, o que acabou não se concretizando.

    Perguntado se o aumento da energia não terá um impacto ainda maior na inflação, Mourão discordou da ideia. "Não vejo dessa forma. Os fatores que fazem a inflação aumentar e diminuir são sazonais. Os setores do governo encarregados do assunto estão trabalhando junto e acompanhando diuturnamente o que está acontecendo e adotando as medidas necessárias", afirmou. A inflação, que está em alta, tem sido fortemente influenciada pelo preço da energia.

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