Militares fazem desfile de tanques na votação do voto impresso

Para analistas e políticos de oposição, evento é tentativa de Bolsonaro de mostrar força em meio aos choques com o Judiciário e a ameaças à Constituição

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    A Marinha anunciou em comunicado que vai realizar na terça-feira (10) um desfile de veículos blindados, incluindo tanques de guerra e lança-mísseis, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O comboio deve estacionar em frente ao Palácio do Planalto, sede do Executivo federal. O desfile acontece no mesmo dia em que está prevista pela Câmara dos Deputados a votação em plenário sobre a incorporação do voto impresso ao sistema de urnas eletrônicas. A medida é defendida pelo presidente. A tendência é que a proposta seja derrotada no Legislativo.

    Bolsonaro tem feito repetidas declarações apontando supostas fraudes no sistema em vigor, mas jamais apresentou provas. Também vem dizendo que sem voto impresso não haverá eleições em 2022. Em resposta enviada nesta segunda (9) ao Supremo Tribunal Federal, que solicitou explicações do presidente sobre os ataques às urnas eletrônicas, o governo disse que as falas de Bolsonaro são protegidas pela liberdade de expressão — atuar contra as eleições, no entanto, pode configurar crime de responsabilidade, já afirmou o Supremo.

    O desfile de tanques foi criticado por parloamentares como o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). No Twitter, ele disse que colocar tanques na rua era sinal de “covardia” de Bolsonaro. Integrantes do Exército ouvidos pela revista Veja consideram o evento “inusitado”. Para analistas e políticos de oposição, trata-se é uma tentativa de Bolsonaro de mostrar força em meio aos recentes choques com o Judiciário, ameaças de não seguir a Constituição e aposta redobrada em um discurso golpista.

    Pedi à Justiça que impeça o gasto de recursos públicos em uma exibição vazia de poderio militar. As Forças Armadas, instituições de Estado, não precisam disso. Os brasileiros, sofrendo com as consequências da pandemia, também não. O Brasil não é um brinquedo na mão de lunáticos

    Alessandro Vieira

    senador do Cidadania de Sergipe

    O desfile antecede o início da Operação Formosa, o maior treinamento militar da Marinha no Planalto Central. Na operação, veículos anfíbios, aeronaves, tanques de combate, carros de artilharia e lançadores de foguetes são usados em uma simulação de guerra. A Marinha diz que 2.500 militares participarão do treinamento.

    Pela primeira vez na história, foi anunciado o desfile de blindados e incluída a participação do presidente em uma cerimônia em frente ao Palácio do Planalto — normalmente os chefes do Executivo são convidados por carta ou email para assistirem ao treinamento. Desta vez, o comandante do comboio entregará pessoalmente a Bolsonaro um convite para acompanhar a Operação Formosa, segundo a nota da Marinha.

    A corporação está subordinada ao Ministério da Defesa, cujo chefe, o general da reserva Walter Braga Netto, teria condicionado a realização de eleições em 2022 à aprovação do voto impresso pela Câmara, de acordo com reportagem publicada em julho pelo jornal O Estado de S. Paulo. Braga Netto negou a ameaça, mas foi convocado à Câmara para dar explicações.

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