Incêndio destrói depósito da Cinemateca Brasileira

Fogo em prédio da zona oeste de São Paulo destruiu galpão do complexo responsável pela preservação da memória do audiovisual. Trabalhadores demitidos alertaram para riscos

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    Um incêndio atingiu um galpão da Cinemateca Brasileira, na zona oeste de São Paulo, no fim da tarde de quinta (29). O local abriga parte do acervo da instituição, responsável pela preservação da memória do audiovisual brasileiro.

    A área atingida funcionava como um lugar de passagem de materiais, segundo o jornal Folha de S.Paulo. A estimativa é de que tenham sido incinerados quatro toneladas de documentos sobre políticas públicas de cinema do Brasil.

    “Perdemos 60 anos de história, toda a memória da política pública de apoio ao cinema”

    Carlos Augusto Calil

    presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca, em relato feito pelo jornal O Estado de S. Paulo

    O Corpo de Bombeiros recebeu um chamado por volta das 18h. Onze viaturas foram enviadas para combater o fogo, que foi controlado por volta das 19h45.

    Segundo os bombeiros, o incêndio começou com um curto-circuito durante a manutenção do sistema de ar-condicionado no primeiro andar do prédio, feita por uma empresa terceirizada. As chamas se alastraram rapidamente.

    “Nós temos o registro de ser um local onde temos diversos materiais combustíveis diferentes. Arquivos de filmes, que tem acetato altamente inflamável e todos os materiais que compõem a edificação”, disse o major Marcos Palumbo, do Corpo de Bombeiros.

    A Secretaria Especial da Cultura do governo federal, responsável pela Cinemateca, disse em nota que “lamenta profundamente e acompanha de perto o incêndio” e que “todo o sistema de climatização do espaço passou por manutenção há cerca de um mês como parte do esforço do governo federal para manter o acervo da instituição”.

    Apesar da informação do Corpo de Bombeiros sobre um curto-circuito ser a provável causa do incêndio, o secretário da pasta, Mario Frias, sugeriu que o fogo pode ter sido provocado. “A Polícia Federal está a caminho, fará perecia para descobrirmos se foi um incêndio criminoso ou não”, afirmou em postagem no Twitter.

    A Cinemateca Brasileira já foi atingida por quatro incêndios ao longo dos seus 74 anos de história. O último tinha ocorrido em 2016, quando cerca de 500 obras foram destruídas pelo fogo.

    A instituição vive uma crise financeira desde 2013, situação que piorou no governo Bolsonaro. Ela está fechada desde agosto de 2020 devido a um impasse judicial sobre sua gestão.

    A organização social que a administrava, a Acerp (Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto) foi desalojada pelo governo federal após o fim do seu contrato de gestão. O governo escolheu outra organização, a Sociedade Amigos da Cinemateca, para administrar temporariamente a entidade, mas não definiu como pretende financiar seu funcionamento.

    Demitidos em meio à crise, em abril de 2021 trabalhadores da instituição alertaram para o perigo de incêndio em um manifesto. No texto, eles afirmam que havia possibilidade de autocombustão das películas e risco real de destruição pelo fogo. Além disso, sem corpo técnico especializado contratado, não se sabe o estado atual do acervo.

    Criada em 1940, a Cinemateca Brasileira tem aproximadamente 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos audiovisuais, como roteiros, fotografias, cartazes, recortes de imprensa, livros e desenhos.

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