Brasileiros se preocupam com mudança do clima, aponta pesquisa

Trabalho mostra alto grau de conscientização da população sobre os efeitos do aquecimento global

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O brasileiro médio está bastante preocupado com a mudança do clima e com o meio ambiente, considera que as queimadas na Amazônia prejudicam a imagem e a economia do país e não vê dicotomia entre proteção ambiental e desenvolvimento econômico. É o que revela o relatório “Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros”, lançado em 9 de março pelo ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro) – um instituto de pesquisa que funciona como uma associação civil sem fins lucrativos – em parceria com o Programa de Comunicação Climática da Universidade Yale, nos Estados Unidos. A pesquisa foi realizada pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), sucessor do Ibope-Inteligência.

O estudo, que está em sua segunda edição, traz dados reveladores sobre a relação dos brasileiros com questões ambientais e de mudança do clima. Em 2021, 81% dos brasileiros acima de 18 anos consultados disseram considerar o aquecimento global uma questão importante, não muito diferente do que foi observado primeira edição do levantamento, em 2020 (78%). A preocupação reflete posições políticas ou ideológicas, mas mesmo assim não se restringe a elas: 88% dos brasileiros identificados mais à esquerda no espectro político e 75% daqueles mais à direita consideram a mudança do clima uma questão importante.

O Ipec entrevistou 2.600 pessoas com mais de 18 anos em todas as regiões brasileiras, buscando uma amostra da população que fosse significativa em termos de gênero (53% são mulheres), idade (40% têm entre 25 e 44 anos), raça (42% são pardos) e classe social (48% pertencem à classe C). As entrevistas se deram por telefone entre setembro e novembro de 2021.

Fabro Steibel, diretor-executivo do ITS-Rio, chama a atenção para outros dados que considera importantes na pesquisa: 96% dos brasileiros afirmam acreditar que o aquecimento global está acontecendo (eram 92% em 2020) – e, tanto em 2020 quanto em 2021, 77% atribuíram o aquecimento principalmente à ação humana. Além disso, 74% dos brasileiros discordam de que as queimadas na Amazônia sejam necessárias para o crescimento da economia. “Entre desenvolvimento sustentável e crescimento econômico, o brasileiro fica com os dois – políticos tentam colocar uma dicotomia entre crescimento econômico e preservação ambiental, mas não é assim que a população vê”, comenta Seibel.

Para 90% dos entrevistados, o aquecimento global pode prejudicar muito as gerações futuras, e 75% dos respondentes consideram que a mudança do clima pode prejudicar muito a si e suas famílias. “O clima está mais próximo de todos: pela chuva, pelas secas, pela flutuação do preço dos alimentos. As pessoas estão vendo mais fenômenos associados ao clima”, afirma.

Além disso, quase 9 em cada 10 brasileiros (86%) consideram que as queimadas na Amazônia prejudicam a imagem do Brasil no exterior e para quase 8 em cada 10 (78%) essas queimadas podem prejudicar as relações comerciais do Brasil com outros países.

“O país tem sido criticado no exterior por escolhas feitas aqui”, explica Steibel. “As queimadas – não apenas da Amazônia, mas de outros biomas como o Pantanal – têm como resultado doenças pulmonares e, por isso, estão muito próximas das pessoas. Ser internado em consequência das queimadas é diferente de apenas ver nas notícias.”

Importância da pesquisa

Para Eloisa Beling Loose, vice-líder do Grupo de Pesquisa de Jornalismo Ambiental da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a pesquisa é importante por ser um levantamento que se pretende anual. Ela conta que os estudos de percepção ambiental no Brasil são bastante esparsos e diferenças metodológicas impedem que sejam diretamente comparáveis.

“A pesquisa do ITS-Rio confirma o que já havíamos visto em levantamentos anteriores: o brasileiro é realmente preocupado com o meio ambiente e as mulheres têm uma percepção de risco mais acentuada, por se preocuparem mais com o futuro devido às atividades associadas ao ato de cuidar”, diz a pesquisadora. “Os homens têm uma visão mais otimista em relação à ciência e tecnologia.” De acordo com o estudo, 66% das mulheres e 54% dos homens se dizem muito preocupados com o ambiente.

A pesquisa poderá permitir análises importantes a curto, médio e longo prazo para o entendimento da relação do brasileiro com o ambiente, diz Loose. “Vai nos ajudar a entender o que interfere na visão das pessoas, em sua percepção de risco, e, consequentemente, nas suas atitudes e comportamentos.”

Ao mesmo tempo, dá origem a novas perguntas. “Não temos muitos estudos nas áreas de psicologia e comunicação das mudanças climáticas no Brasil. Não sabemos se as diferenças regionais são um fator significativo na percepção das pessoas sobre mudanças climáticas”, observa. “Há pouco investimento no Brasil para tratar das mudanças climáticas sob o viés das humanidades e das ciências sociais.”

Possibilidades

Apesar de 8 em cada 10 brasileiros considerarem o aquecimento global uma questão muito importante, apenas 2 em cada 10 dizem estar bem informados sobre o tema. Para Rosi Rosendo, diretora de Inteligência e Insights do Ipec, a lacuna abre espaço para desinformação.

Entre as pessoas com escolaridade mais baixa – que completaram apenas o ensino fundamental 1 e 2 –, a percepção enganosa de que há controvérsia científica sobre o aquecimento global é apenas ligeiramente maior do que entre as camadas com mais escolaridade (21% e 19%, respectivamente, ante 17% entre pessoas com ensino médio e 15% de pessoas com curso superior).

O jornalismo, segundo ela, tem um papel fundamental em informar. “Especialmente quando a maior parte das pessoas se informa por meio de conversas com parentes e colegas de trabalho [87%], como mostrou a pesquisa.” A cobertura pode ter impacto, por exemplo, na percepção sobre o consenso científico que existe sobre o tema. Para Eloisa Loose, “a cobertura sobre mudanças climáticas e do desmonte de políticas ambientais tem sido mais transversal e mais frequente, repercutindo no debate público”.

Apesar dos desafios, Rosendo ressalta que o brasileiro não apenas se preocupa com o tema, mas também traduz sua preocupação em atitudes. 3 em cada 4 entrevistados dizem separar o lixo para reciclar, 58% já deixaram de comprar algum produto que prejudica o meio ambiente e 45% declaram ter votado em algum político que defende causas ambientais. “É importante que o brasileiro se preocupe com a questão na prática também. A população sinaliza interesse em consumo consciente e o debate político, não tão polarizado quanto nos Estados Unidos, pode ser um tema importante para as eleições deste ano”, comenta.

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