O efeito do açúcar no cérebro de crianças e adolescentes

Nutricionista mostra como o excesso do ingrediente na dieta pode interferir na saúde mental durante a infância e a adolescência

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Os pais frequentemente se preocupam com a quantidade de açúcar ingerida por seus filhos, mas pode ser difícil saber quanto é demais – ou o que fazer com isso.

A glicose – um açúcar simples que forma a base da maioria dos alimentos ricos em carboidratos – é a principal fonte de energia para o cérebro. Os cérebros saudáveis requerem uma fonte contínua de energia e nutrientes para alimentar o crescimento, a aprendizagem e o desenvolvimento.

No entanto, isso não significa que o consumo extra de açúcar seja bom para o cérebro em desenvolvimento. Muito açúcar pode, na verdade, ser prejudicial ao seu crescimento normal.

Sou uma nutricionista clínica e uma cientista da nutrição com foco em neurociência. Minha pesquisa gira em torno da compreensão do impacto da dieta e do estilo de vida no funcionamento do cérebro e no bem-estar mental. Os resultados preliminares do meu estudo indicam que o consumo de alimentos açucarados está associado à angústia mental – como a ansiedade e a depressão – e ao sono perturbado.

Fontes de açúcar na dieta das crianças

Alimentos processados, tais como donuts, refrigerantes e cereais adocicados, costumam conter açúcares adicionais. Infelizmente, esses alimentos tendem a ser facilmente acessíveis para crianças e adolescentes.

Os alimentos quimicamente processados são aqueles modificados pela adição de componentes que não são encontrados in natura. Esses alimentos frequentemente contêm adição de açúcares, conservantes, sais e gorduras trans – todos com o objetivo de aumentar o sabor, a textura ou o prazo de validade.

Como resultado, os alimentos processados têm um valor nutricional inferior aos alimentos integrais, tais como frutas, vegetais e grãos integrais. Um dos adoçantes mais comuns nos produtos alimentícios dos EUA é o xarope de milho de alta frutose, que contém não apenas glicose, mas outro açúcar simples chamado frutose. A frutose em excesso tem sido associada ao aumento da gordura corporal. O xarope de milho com alto teor de frutose é encontrado em refrigerantes e produtos cozidos como muffins e donuts.

Dieta, cérebro e funcionamento

Certos componentes dietéticos como os aminoácidos, que formam a base das proteínas, atuam como precursores de produtos químicos para o cérebro. Os aminoácidos também desempenham papel importante no humor, na aprendizagem e nas funções cognitivas.

Assim como motores de automóveis precisam do combustível adequado para funcionar eficientemente, os cérebros também necessitam de uma dieta adequada para um funcionamento ideal. O cérebro é composto por células nervosas, ou neurônios, e células domésticas, chamadas células gliais. Embora esses dois tipos de células cerebrais tenham necessidades metabólicas diferentes, a glicose é a principal fonte de energia para ambos.

Apesar do fato de o cérebro representar apenas 2% do peso total de um humano, ele requer cerca de 20% da energia do corpo para desempenhar todas as suas funções, incluindo aprendizagem, memória e processos cognitivos. Pesquisas sugerem que essa proporção é ainda maior em crianças cujos cérebros e corpos estão se desenvolvendo rapidamente.

A função e o crescimento do cérebro são regulados pelos neurotransmissores, que devem reger a arquitetura do desenvolvimento cerebral. Dependendo do estágio do crescimento cerebral, um desequilíbrio dos neurotransmissores críticos pode causar uma miríade de doenças, afetando o aprendizado, o humor e o comportamento.

Da mesma forma, uma dieta de baixa qualidade ou desequilibrada, que seja rica em açúcar processado, por exemplo, pode desestabilizar o equilíbrio químico do cérebro.

O excesso de açúcar sobrecarrega o cérebro

Como a glicose é a principal fonte de energia para o cérebro, muito açúcar pode colocá-lo em um estado de sobrecarga. Quando o cérebro é superestimulado, ele pode levar à hiperatividade e a mudanças de humor. Entretanto, essas mudanças comportamentais são apenas consequências de curto prazo. Algumas evidências sugerem que a hiperatividade cerebral em adolescentes está ligada a deficits cognitivos na idade adulta.

O açúcar também tem um efeito viciante porque estimula os neurônios no sistema de recompensa do cérebro, conhecido como o sistema límbico. Quando ativado, o sistema límbico gera fortes emoções, como o prazer, o que reforça ainda mais o consumo de açúcar.

Além disso, dentro do sistema límbico existe uma estrutura minúscula chamada amígdala, que processa informações emocionais. A ativação excessiva da amígdala está associada a emoções exageradas, como medo e ansiedade.

Pesquisas sugerem que existe uma forte relação entre alto consumo de açúcar, comportamentos alterados e má regulação emocional. Embora a ingestão de açúcar possa melhorar momentaneamente o humor, o consumo crônico tem sido associado ao aumento do risco de problemas de saúde mental.

Estudos em animais de laboratório também sugerem que o alto consumo de açúcar dificulta o aprendizado e a memória. Curiosamente, a ingestão diária de bebidas adoçadas com açúcar durante a adolescência está associada à piora no rendimento em tarefas de aprendizagem e de memória durante a idade adulta. Os pesquisadores sugerem que essa deficiência pode ser decorrente de alterações nas bactérias intestinais.

Considerando o conjunto de evidências, a doçura aparentemente irresistível do açúcar pode se traduzir em um resultado amargo para o cérebro em desenvolvimento.

Este artigo é parte de uma série que examina os efeitos do açúcar na saúde e na cultura humana. Leia a série no site theconversation.com

Lina Begdache é professora de nutrição na Binghamton University da State University of New York

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