Por que teorias da conspiração aparecem mais na pandemia

Cientista político britânico analisa as motivações de quem dissemina fabulações contra vacinas e recomendações sanitárias

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Todos nós já nos deparamos com alguma delas. Aqueles posts compartilhados por amigos de amigos no Facebook, aquele tuíte chocante que você custa a acreditar que não tenha sido apagado imediatamente depois da publicação. Junto com o distanciamento social e as reuniões no Zoom, parece que um sintoma incontornável da pandemia é a proliferação de teorias da conspiração nas redes sociais.

Teorias conspiratórias são diferentes de outras formas de desinformação e falsificação. São meios peculiares de dar um sentido ao mundo complexo e muitas vezes perturbador em que vivemos. Elas também são vistas como um fenômeno especialmente político. O historiador americano Richard Hofstader se referiu a essas ideias como os alicerces do pensamento político “paranoico”, repleto de “exageros veementes, desconfiança e fantasia conspiratória”.

Um entendimento mais recente da importância das teorias da conspiração pode ser encontrado no trabalho do teórico político Alfred Moore, que sugere que elas são meios de “explicar eventos ou fenômenos de uma forma injustificável, implausível ou até perigosa, sempre invocando conspirações profundas e descartando todas as evidências contraditórias”.

No meu trabalho, eu defendo que durante os anos recentes nós vimos o surgimento de diferentes formas de teorias da conspiração motivadas por mudanças estruturais na forma como nos comunicamos sobre política. Para entender esse fenômeno, precisamos pensar nas teorias da conspiração como parte de uma transformação significativa na forma como a participação política ocorre nas democracias contemporâneas.

Preenchendo um vazio

Há várias razões pelas quais vemos as teorias da conspiração se consolidarem dessa forma, e as implicações disso para a nossa resposta à pandemia não podem ser ignoradas.

Há um consenso de que as teorias da conspiração aparecem com mais frequência em períodos de crise. Pesquisas mostram que a popularidade dessas ideias não é tão constante, e que há picos durante eventos cataclísmicos e revoltas sociais. Teorias da conspiração proliferaram durante pandemias anteriores, como a peste negra, a gripe russa do fim do século 19 e a gripe espanhola.

Mas, ao contrário das crises passadas, as teorias da conspiração recentes foram impulsionadas pela mudança no jeito como nos comunicamos uns com os outros. As redes sociais têm uma importância especial nisso, permitindo a rápida transmissão de informações (pelo menos superficialmente) plausíveis, produzidas por fontes aparentemente confiáveis. Esse contexto importa, porque permite um alto grau de autonomia individual na disseminação de teorias da conspiração.

Essas teorias são poderosas porque são participativas. Elas engajam as pessoas diretamente no desenvolvimento e amplificação de ideias políticas, por mais bizarras que elas sejam. Em um ambiente onde a confiança nas instituições políticas está em declínio e o envolvimento com a democracia é altamente desigual, essa forma de participação constitui uma alternativa acessível e estimulante à política mainstream.

Existe uma máxima entre os teóricos da conspiração digitais: faça sua própria pesquisa. Isso encoraja os envolvidos a procurar a validação de suas ideias por meio de fontes que refutam a narrativa “oficial”. Envolver-se em teorias da conspiração contemporâneas acaba sendo algo parecido a participar de um jogo. As pessoas são encorajadas a “descobrir” informações promovidas por seus contatos virtuais em vez de aceitar passivamente os dados e fatos produzidos por fontes estabelecidas. Estudos nos mostram que qualquer evidência que as contradiga, por mais contundente que seja, é incapaz de ser aceita – aliás, essa evidência pode até ser levada em consideração, mas para endossar a teoria da conspiração. Em suma, ter essa convicção necessariamente implica não acreditar em instituições públicas nem em evidências científicas.

Encarando os fatos

É claro o potencial de teorias da conspiração minarem os esforços para frear a disseminação da covid-19 e abalarem a confiança nas vacinas. Argumentos falsos contra as vacinas são apresentados como uma “narrativa alternativa” de status igual ao de evidências científicas. Tentativas de expor as fragilidades dessas teses são interpretadas como provas de interesses escusos do Estado ou de empresas farmacêuticas.

A natureza participativa e recreativa da geração e transmissão dessas ideias permite às pessoas encontrar algum grau de estabilidade em tempos muito confusos e incertos. Parte do apelo das teorias da conspiração que dizem que ela foi planejada é que, de fato, estamos sujeitos a mais regras do que já estivemos em outros tempos.

O perigo que essas fabulações causam à saúde pública e à possibilidade de encontrar algum caminho para fora dessa pandemia é real. Nesse ambiente, pode ser difícil distinguir o que é fato do que é ficção, à medida que especialistas e fontes estabelecidas de informação são desacreditados o tempo todo nas redes sociais. O fato de não conseguirmos encontrar uma resposta coerente e crível para enfrentar esse problema é, portanto, profundamente preocupante.

Muitos passos precisam ser dados para resolver essa questão. Repensar a regulação das redes sociais e banir os “superdisseminadores” de teorias da conspiração (incluindo contas de celebridades e figuras públicas) têm um potencial óbvio. Um governante também pode ser o líder de correntes de desinformação. Todavia, qualquer intervenção tem que se basear na compreensão de que as demandas participativas da política estão mudando.

É claro que há questões difíceis sobre como responder a essas teorias da conspiração de uma forma que não restrinja o direito legítimo de questionar as autoridades, algo essencial em qualquer democracia. Mas é imperativo que nós, como sociedade, respondamos ao crescimento súbito de ideias como essas.

Rod Dacombe é professor de ciência política na King’s College London.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.