Como a pandemia aumentou o interesse pela vida dos outros

Autoras britânicas analisam o impacto do isolamento e da crise sanitária nas perspectivas sobre o cotidiano em sociedade no Reino Unido

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O aniversário da pandemia está próximo e o Reino Unido enfrenta seu terceiro lockdown nacional. O impacto social é inegável: diversos estudos já mostraram os efeitos individuais desse estado das coisas, as mudanças que a covid-19 gerou nas nossas rotinas e as diferentes formas como pessoas comuns lidam com esses tempos excepcionais.

Alguns casos viralizaram, e foram lidos, compartilhados e escutados em todo o planeta. A história de Tom Moore é um exemplo: o capitão reformado do Exército britânico que, aos 99 anos, deu cem voltas ao redor do seu jardim para arrecadar fundos para o NHS, o serviço de saúde pública britânico.

Essa boa ação gerou uma reação internacional que engajou um público enorme com a meta modesta de Moore – inicialmente, obter mil libras. No final das contas, a campanha do ex-militar levantou 32 milhões de libras, e ele foi condecorado pela rainha.

Em tempos como os atuais, é preciso pensar na relação feita pelo sociólogo americano Charles Wright Mills entre “problemas privados” e “questões públicas”. Wright Mills nos desafia a explorar os aspectos da vida social que são considerados individuais e cotejá-los com a estrutura mais ampla da sociedade, como ela se organiza. Somos criaturas sociais, e nossas vidas íntimas e em sociedade estão intrinsecamente interligadas. Hoje, o foco na vida privada é talvez ainda mais pertinente, dado que nossa vida social sob isolamento já dura tanto tempo.

Historicamente, biografias e autobiografias são formas de documentar uma vida. Geralmente elas retratam personalidades, embora diários como os de Samuel Pepys e Anne Frank registrem a experiência de pessoas comuns vivendo sob condições extraordinárias.

Mas agora há um interesse maior em vidas escondidas das nossas vistas, como as de pessoas que superam condições adversas na infância: crescendo na pobreza (“Lowborn”, de Kerry Hudson), no orfanato (“My Name is Why”, de Lemn Sissay), fazendo parte de gangues juvenis (“So You Think You Know Me”, de Allan Weaver). Também podem ser relatos de uma vida atrás das grades (“Redeemable”, de Erwin James), opressões de raça ou classe (“Natives”, de Akala), autismo (“Meu mundo misterioso”, de Donna Williams), alcoolismo e falta de moradia (“The Grass Arena”, de John Healy). Essas autobiografias contam as vidas de indivíduos enquanto destacam os contextos sociais, culturais e históricos nos quais eles viveram.

Hoje, os diários não são mais mantidos de forma tradicional, mas sim publicados nas redes sociais. Nossa fascinação com a vida dos outros aumentou exponencialmente com as novas mídias, que deram mais acesso à vida alheia (ou àquilo que os outros querem expor). Isso também é visto na proliferação de reality shows com celebridades e pseudocelebridades.

Vivendo sob a pandemia

Depois que o choque inicial da pandemia se converteu no “novo normal”, a atenção se virou para a vida das pessoas comuns. É um espelho do que aconteceu nos atentados de 11 de setembro de 2001, quando, uma vez absorvida a enormidade da situação e de suas implicações, o foco se tornou as experiências de quem foi afetado pela tragédia.

Programas de TV como o “Isolation Stories” retratam a vida sob o lockdown, e documentários como “Panorama” mostram como o isolamento mudou nosso jeito de ser. O aumento no número de grupos de assistência mútua é um exemplo de como as pessoas contribuíram com suas comunidades locais.

As circunstâncias nos apresentam heróis inesperados, como os retratados na capa da edição de julho de 2020 da Vogue britânica: uma assistente social, uma atendente de supermercado e uma maquinista. “Não posso pensar num trio mais adequado para representar os milhões de britânicos que, se expondo ao risco, colocam seus uniformes e ajudam as pessoas”, disse na época o editor Edward Enninful.

O isolamento provocado por lockdowns e quarentenas e a incerteza sobre o quanto isso tudo vai durar nos deu tempo para pensar melhor em nós como indivíduos e sociedade. Houve uma preocupação crescente com aqueles que precisam sobreviver à pandemia na pobreza, sob violência doméstica ou outras desmazelas. Não podemos pressupor que conhecemos as experiências das pessoas durante a pandemia e, embora seja recorrente a mensagem de que “está todo mundo no mesmo barco”, nós sabemos que as experiências na vida real são muito diferentes entre si a depender das circunstâncias.

O governo nos pede responsabilidade para manter os outros seguros, como ficar em casa e usar máscaras, e aqueles que cumprem essas recomendações são bem vistos. Já quem se comporta de forma irresponsável é repudiado, seja estocando papel higiênico ou passando o dia na praia.

Um registro significativo desse período é um memorial online mantido pela Catedral de São Paulo, em Londres, onde familiares e amigos postam fotografias e textos curtos sobre os entes perdidos para a covid-19. Um espaço público para compartilhar perdas privadas.

Coletando e analisando histórias individuais é possível derrubar certezas e dar visibilidade àqueles que são marginalizados. É possível explorar suas diferenças e semelhanças, as suas experiências e o impacto dessas experiências sobre eles. Esses são os registros que, no futuro, nos permitirão olhar para trás e refletir sobre o presente, e sobre o significado da pandemia na história.

Anne Chapell é docente em educação na Brunel University London

Julie Parsons é Professora Associada de Sociologia na Plymouth University

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