Os desequilíbrios emocionais de crianças na pré-escola

Pesquisa em município da Grande São Paulo com 1.292 alunos com até cinco anos identifica sinais de estresse e ansiedade que podem dificultar a alfabetização

Risadas de crianças pequenas a brincar no pátio da escola alimentam a impressão de que estão felizes. Não é bem assim. Pouco se sabe sobre a saúde mental de meninos e meninas em idade pré-escolar, de três a cinco anos, que ainda não expressam seus sentimentos com clareza. Aparentemente, nem todas estão bem. Em Embu das Artes, município de 270 mil habitantes na Grande São Paulo, estudo mostrou que uma em cada quatro crianças pré-escolares apresentou sinais de ansiedade, oscilações de humor, timidez excessiva, choro fácil e dificuldade de relacionamento com outras crianças e adultos. Esses problemas, se não forem reconhecidos e tratados, podem se desdobrar em quadros mais graves de depressão e outros transtornos mentais.

As conclusões resultam do acompanhamento de 1.292 crianças de quatro a cinco anos de idade de 30 escolas públicas do município por pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e das universidades de Columbia e Johns Hopkins, ambas nos Estados Unidos, em colaboração com equipes das secretarias de Educação e Saúde de Embu. Os achados desse trabalho, um dos mais abrangentes da área no Brasil nessa faixa etária, resultam de dados coletados em 2016 e foram detalhados em um artigo publicado em agosto na Brazilian Journal of Psychiatry.

Crianças e professores com quadros mais preocupantes de possíveis alterações emocionais foram encaminhados para atendimento psiquiátrico e psicológico na Unifesp. Ao mesmo tempo, o grupo de pesquisadores ajudou a Secretaria de Educação de Embu das Artes na criação de um programa de prevenção de transtornos mentais na primeira infância, interrompido pela pandemia, com palestras para pais e professores nos finais de semana nas próprias escolas.

A prevalência de 25% de crianças pré-escolares com sinais de desequilíbrio emocional é similar às registradas em países de baixa renda, como Índia e Peru, e acima da média de 15% encontrada em países economicamente mais desenvolvidos, como Estados Unidos, informa a psiquiatra da Unifesp Sheila Cavalcante Caetano, coordenadora do trabalho. “Verificamos que a realidade socioeconômica e o grau de instrução dos pais influenciam bastante o equilíbrio emocional e o comportamento das crianças ainda na primeira infância”, afirma.

O estudo mostrou que o atraso no desenvolvimento socioemocional, identificado em cerca de 25% das crianças, leva a desempenhos abaixo do esperado para a idade. Segundo Caetano, essa defasagem e as alterações emocionais, se não identificadas pelos pais, educadores e profissionais da saúde, podem dificultar a aprendizagem da leitura e da escrita e da matemática, nos anos seguintes.

Em 2016, quando foram a campo, os pesquisadores visitaram as escolas, acompanharam as crianças em sala de aula e entrevistaram seus pais, às vezes em casa. Com um questionário de 88 páginas, na maioria das vezes (85%) respondido apenas pelas mães, obtiveram informações sobre a situação financeira, o grau de instrução da família e as condições de saúde tanto dos filhos quanto dos pais. “A partir das respostas, traçamos um quadro dos sintomas relacionados a alterações emocionais e comportamentais nas crianças, como irritabilidade, agressividade e medo excessivo”, conta Caetano.

Praticamente todas as crianças que participaram do estudo moravam em áreas periféricas e de baixa renda, longe do centro da cidade, conhecido pelos casarões históricos e feiras de artes. Caetano observou ambientes familiares tumultuados, com incertezas financeiras e estressantes tanto para os pais quanto para as crianças. “Sem tempo ou preparo, muitos pais não notam os sinais de atraso no desenvolvimento e na capacidade de o filho ou filha interagir socialmente”, explica ela.

“Crianças agitadas deveriam ser estimuladas a praticar atividades físicas e brincadeiras, mas muitas escolas públicas que visitamos não tinham estrutura adequada, como áreas amplas e seguras ao ar livre.” Também a falta de estímulos para as crianças se expressarem prejudica o desenvolvimento da habilidade motora e funções cognitivas como a linguagem.

Professoras estressadas

A psicóloga da Unifesp Marília Mariano observou atentamente o que se passava em 74 salas de aula das escolas acompanhadas. “A superlotação das salas era comum, com até 35 crianças para cada professora, quando o recomendado é de nove alunos por professora”, conta.

Mariano convidou 720 crianças, separadamente, para participar de brincadeiras e jogos, com bolas e cubos de montar, para avaliar suas habilidades cognitivas e motoras. “Elas adoraram, se soltaram, perguntavam de onde éramos, o que fazíamos lá”, observou.

“A pré-escola não é um período preparatório para a alfabetização nem apenas um local para garantir cuidados básicos, como alimentação e higiene. Tampouco é um lugar para as crianças ficarem enquanto os pais trabalham. Tanto a creche quanto a pré-escola devem ser encaradas como instituições responsáveis pelo desenvolvimento integral das crianças, do ponto de vista psicológico, emocional, físico e social”, reforça a pedagoga Mônica Baptista, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que não participou do estudo.

“Assegurar o direito à brincadeira é uma das principais funções da pré-escola. A criança, quando brinca de faz de conta, quando tem ampla liberdade para imaginar, amplia suas representações de mundo, o que é muito importante para seu desenvolvimento emocional e cognitivo”, afirma Baptista. “Por isso é tão importante a literatura. É fundamental que, desde cedo, os adultos leiam para as crianças. Isso estimula sua entrada no mundo simbólico das palavras.”

A leitura, porém, não é um hábito em boa parte das casas brasileiras. A quinta edição da pesquisa Retratos da leitura no Brasil, divulgada em setembro pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope, mostra que 48% dos brasileiros não têm o hábito de ler – na edição anterior, a taxa era de 44%. “Pais que não leem dificilmente vão influenciar seus filhos nessa prática”, argumenta Caetano. “No Brasil, as crianças começam a ser alfabetizadas aos 6 anos, mas 40% delas, aos 9, ainda não são fluentes na leitura.”

Para agravar a situação, as crianças passam mais tempo na frente de telas de televisão, computador ou celular. Em artigo publicado em junho na revista Cyberpsychology, Behavior and Social Network, os pesquisadores da Unifesp, Columbia e John Hopkins analisaram os efeitos do uso excessivo de telas na saúde mental de 926 crianças em idade pré-escolar de Embu das Artes. Observou-se que 55% delas comem enquanto assistem à TV e 28% passam mais de duas horas por dia jogando videogame ou usando o celular dos pais. “Essa situação leva ao sedentarismo e está associada à baixa capacidade motora”, diz a psiquiatra e epidemiologista brasileira Silvia Martins, há oito anos professora na Universidade Columbia. “O aumento da inatividade física também contribui para acentuar quadros de ansiedade e estresse.”

Para ser alfabetizada, a criança precisa adquirir funções motoras básicas, como pegar um lápis e ficar sentada em uma cadeira. Essas tarefas “não são triviais” na tenra idade, diz Martins. “Depende de estímulos e de acompanhamento na escola.” Por isso, acompanhar as aulas no ensino fundamental poderia ser mais difícil para as crianças que passam pouco tempo brincando, desenhando ou jogando bola e mais tempo na frente da TV ou do celular. “A exposição excessiva às telas pode atrapalhar o desempenho de tarefas simples, como equilibrar-se e ligar pontos no papel para treinar a escrita”, diz a pesquisadora.

As pesquisadoras também analisaram outros fatores que influenciam o aprendizado. “Filhos de mães que fumaram na gravidez apresentam mais problemas cognitivos e socioemocionais do que aqueles cujas mães não fumaram”, afirma Martins, coautora de um artigo sobre tabagismo em mulheres e capacidade de leitura de seus filhos, publicado em setembro na revista Early Human Development. Já se sabia que o tabagismo da mãe pode alterar o desenvolvimento do cérebro da criança na gestação. “O que agora se nota com mais clareza é que esse impacto é mais profundo do que se pensava, com efeitos que se prolongam na idade pré-escolar”, diz ela.

O fechamento de escolas provocado pela pandemia de covid-19 exacerbou esses problemas, avalia a psiquiatra. “O fato de estarem tantos meses em casa, por conta do isolamento social, possivelmente estressa as crianças e aumenta o risco de desequilíbrio emocional”, diz ela. “Os educadores deveriam considerar esses aspectos e priorizar a reabertura das escolas de maneira segura.”

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